Sem dó nem piedade, o "copicida" que arremessa um copo com 500 ml de cerveja num juiz de futebol merece ser condenado a beber água potável para o resto de sua pobre vida. "Copicida" é o desatinado que arrisca jogar fora a própria vida num estádio de futebol, desperdiçando na cabeça de um bandeirinha nove mil anos da história da humanidade.
Sabe-se que há cerca de nove mil anos os povos que habitavam o Oriente, entre o Tigre e o Eufrates, já se deliciavam com uma bebida preparada a partir de cereais, a qual se poderia chamar cerveja, e que, depois de séculos e séculos de pesquisas e degustações, também serve para interditar a Arena da Baixada para a prática do rude esporte bretão.
Quem tem razão? O torcedor – com seu legítimo direito de protestar e se fazer ouvir através de certeiro copo de cerveja no cangote de um bandeirinha mal-intencionado – ou o Estatuto do Torcedor, que instaurou nos estádios a prática da delação, e a execução sumária, por parte de uma massa de torcedores sedenta de vitórias, sangue e cerveja gelada? Mais uma vez estamos diante da história do copo metade cheio. De um lado, pensa-se que está meio vazio; do outro, meio cheio. Todos bebem e ninguém tem razão.
Se na origem da polêmica está um copo de cerveja, trata-se de um problema de civilizada solução: antes de impugnar a torcida, retirem-se os copos de plástico das arquibancadas, estabelecendo-se que uma cerveja bem gelada não merece ser degustada a mais de cinco metros de um balcão. E nem servida num copo qualquer.
Cada bebida tem seu próprio copo, assim como um time de futebol tem seu próprio estádio. Quando bebemos vinho, conhaque, uísque, licor, até uma purinha de Morretes, levamos em conta o copo adequado, onde a bebida é depositada em seu leito natural. Quando se trata de cerveja, convenhamos, a torcida não tem discernimento, sorve o precioso malte num copo qualquer. Alguns chegam ao ponto de beber cerveja em copo de embalar mostarda.
Mostarda mas não falha: num copo errado, qualquer bebida provoca ressaca, diz o jornalista e escritor Horácio Braun, fundador da Universidade da Cerveja, Schnaps e Botecos de Blumenau. A cerveja, atesta Braun, "possui uma série de características que a diferenciam das demais bebidas. É uma bebida carbonatada, que deve ser servida a baixas temperaturas e com uma coroa de espuma. Uma vez servida no copo apropriado, é extremamente sensível à presença de odores estranhos do ambiente, aquece rapidamente e perde gás carbônico. O apreciador espera que as características originais da cerveja (brilho, aroma, paladar, cor e espuma), permaneçam intactas ao ser servida no copo. Para tal, devemos utilizar copos próprios para cerveja, como as tulipas ou outros que possuam a forma adequada (geralmente em outros países, cada tipo de cerveja possui o seu próprio copo: Pilsen, Weiss ou Weizen, Stout, Porter, Bock, Light, etc.).
Horácio Braun, que neste sábado estará comandando pelas ruas de Blumenau o famoso Encontro dos Stammtisch – onde este escriba estará lançando o Botecário – é um preciosista em relação ao copo de cerveja e seu justo design: "A boca do copo não deve ser demasiado grande, que propicie perda excessiva de gás carbônico, ou pequena, que dificulte a percepção do "buquê" típico da cerveja. As paredes do copo, tanto internas como externas, devem ser lisas, de modo a facilitar a limpeza e a assepsia, assim como o fundo, que não deve possuir cantos vivos que dificultem a limpeza."
Conforme vimos, por ser inadequado, o copo plástico de 500 ml precisa perder o seu mando de campo e a cerveja deve ser obrigatoriamente servida nos estádios com a dignidade que ela merece. Isto é, os bares da Arena da Baixada devem servir a popular "loura gelada" em copos de cristal, conforme design recomendado por especialistas. E no balcão, porque a regra é clara: a mais de cinco metros do balcão, a cerveja e os ânimos azedam.
Até domingo, com notícias do Stammtisch, em Blumenau, onde ficaremos hospedados no Hotel Rex, um dos mais antigos e nobres de Santa Catarina, fundado em 1950.