Faz quase uma semana de tempo, os jornais publicaram esta foto do Jaime Lerner dividindo um banco com uma estátua do Paulo Leminski. A cena lembrou uma madrugada pra mais de 20 anos, no Bar Palácio.

Mais com sede do que com fome, o jornal ainda sujando os dedos de tinta, nos abancamos na ala atendida pelo saudoso Mozart. O único garçom do mundo que servia aos clientes pimenta do próprio quintal e de receita própria. Com afeto, vinha a pimenta mansa. Para os desafetos vinha a furiosa, com chifres rasgando gargantas.

Naquela noite éramos três: Francisco Camargo, o melhor mestre de cozinha de redação que conheço, Mussa José Assis e eu, então um guri bem passado. Sei lá por quantas cervejas, a conversa adernou para um delírio coletivo.

Por que Curitiba trata tão mal seus próprios viventes? Curitibano sente pelo curitibano o mesmo que uma pessoa que não gosta de gato sente por um gato. Uns, mais sinceros, só não chutam o felino pela janela. Outros, mais perversos, se fazem absolutamente indiferentes.

Diz a lenda que na primeira dose costumamos ficar inteligentes, na segunda formosos e na terceira milionários. Naquele dia ficamos nem uma coisa nem outra, apenas cordiais. E decidimos criar ali mesmo, naquela mesa já engordurada de farofa de ovo, uma instituição para (desculpe o palavrão) “resgatar” as glórias dos curitibanos viventes. Como delírio pouco é bobagem, acordamos também a melhor forma de homenagear nossos sobreviventes: com uma estátua.

Uma estátua, bem como aquela feita para o Paulo Leminski e que o Jaime Lerner vai inaugurar agora no Parque da Ciência. Uma estátua que devia ter sido criada ainda com o polaco Leminski tomando seus tragos nos bares/mares curitibanos.

Por tanto delírio, ficamos imaginando o Zé Ghignone descerrando o pano da própria estátua, bem em frente à sua livraria da Rua das Flores. Estátua em pé, quase encostada à magnífica porta (que mereceu poema do Nireu Teixeira), simplesmente olhando em direção ao velho prédio da Universidade.

Ou então, nossa Helena Kolody, ainda cheia de poesia e graça, inaugurando sua estátua no Bosque do Papa, recanto de estimação, onde o fotógrafo Carlão Ruggi realizou a mais bela foto da poetisa.

Com a devida licença dos coxas, por que não uma estátua para o Barcímio Sicupira? Bem posta na Rua Fernando Amaro, no endereço onde nasceu e ainda mora, na calçada em frente à velha casa da família.

A idéia é um delírio de três jornalistas por natureza delirantes, pois sim. Mas nem tanto. Sexta-feira consultei o artista João Moro (41- 335-4937), em cujo atelier nasceu a presente estátua de Leminski, e ele orçou barato, para os amigos. Nada que um jantar comandado pelo Malu Malucelli não possa pagar. Aliás, e por que não uma estátua para o Malu?

Interessados neste delírio, puxem uma cadeira e se abanquem. Como os tempos são outros, podemos continuar a conversa do Bar Palácio por e-mail.

E se houver mecenas, não resta a menor dúvida: merece uma estátua.

Até quarta-feira e aviso aos navegantes: sou candidato a caseiro da Ilha das Cobras. Me chama que eu vou, Requião!

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