É triste dizer. Pelo vagar do andor, porque o santo é de barro, este ano de 2005 não vai acabar tão cedo. A exemplo de 1968, o ano que não terminou, ainda teremos muitos e muitos dias pela frente.
Para os que estão chegando agora, ou vêem a paisagem de fora, na cidade de Curitiba estamos apenas em julho. Ainda temos seis longos meses a cumprir, antes das festas de fim de ano. Em pleno horário de verão, há oito semanas o sol sumiu de vista e, quando nos dá a subida honra, surge feito um vaga-lume. Enquanto os personagens acendem a lareira, o escritor desce a ladeira. Dalton Trevisan foi visto na manhã de ontem descendo a Rua XV com um capote de lã para se proteger da temperatura de apenas 13 graus, o céu era cinza-chumbo e chovia lá fora. Este é o cartão-postal que nos resta.
Para o relator da CPMI dos Correios, deputado Osmar Serraglio, este ano de 2005 não suporta apenas 12 meses. É pouco, muito pouco, para avançar nas apurações.
De tão pouco, pediu a prorrogação da CPMI por mais quatro meses. Sendo assim, só no que compete à devassa, o ano de 2005 deve terminar em abril do próximo calendário, noves fora janeiro e fevereiro, que nem Osmar Serraglio é de ferro e Gustavo Fruet menos ainda.
Os indícios de que o ano de 2005 semelha com 1968 – o ano que não terminou – são muitos. Naquele ano, Paris estava em chamas. Em 2005 também. Do interior da França, nos conta Graça Andrade, nossa antiga musa que se fez francesa: ?A violência continua por aqui, mas Malesherbes, por enquanto, não foi atingida.
Na noite passada, algumas cidades próximas como Orléans e Pithivier (esta a 25 km) foram alvo de malfeitores: carros incendiados e ônibus destruídos. Nesta noite, a 12.º de distúrbios consecutiva, as violências continuam.
O primeiro-ministro, Dominique de Villepin, fez hoje à noite uma intervenção na televisão. Entre outras medidas, ele autorizou os prefeitos a fazer uso do ?couvre feu?, que corresponde ao nosso toque de recolher. Se nada for feito, e com urgência, a violência voltará a explodir. O problema de preconceito com imigrantes (sobretudo com os pobres), de desemprego, de moradia, a baixa qualidade da escolarização, são as causas principais. Sem contar o atual ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, que é um verdadeiro desastre. Estamos preocupados, mas vamos esperar o desenrolar dos acontecimentos?.
O ano de 2005 vai longe, e promete. Se Paris está em chamas, em Brasília o deputado Zé Dirceu só ainda não ateou fogo às vestes. De todas as prerrogativas usou, de todos os recursos recorreu, a muitos juízes implorou para que este ano de 2005 termine no prazo regulamentar. O comissário reza para que estes dias de fúria lhe sejam breves.
Se no calendário chinês este é o ano do Galo, no calendário brasileiro este é o ano do Lula, que reuniu os ministros e cobrou o fim da crise, o fim do ano que ele jamais vai esquecer e faz questão que ninguém também esqueça. No compadrio do Roda Viva – ?Já estamos com a mão na taça??-, restou uma entrevista com perguntas sem respostas.
O presidente ouviu o que achou melhor e respondeu o que lhe foi conveniente: ?Não posso responder pelo dinheiro do Duda. O PT teve uma coordenação de campanha que fez acordos com todo mundo, do menino que servia cafezinho ao Duda. O Delúbio vai prestar contas, o Duda vai prestar contas. Depois vamos saber o que aconteceu?.
Para quem nunca tinha viajado de avião antes de ser dirigente sindical, Lula fez o que mais gosta de fazer: viajou, viajou e viajou, na asas dos entrevistadores. Tenham paciência, mas pelo que o presidente deixou vazar na entrevista do Roda Viva, este ano de 2005 não vai terminar tão cedo. Até lá, o excelentíssimo tem muitas respostas a dar e, para tanto, os próximos 52 dias serão pouco.