Onde você estava no dia 11 de setembro de 2001? Você soube do assassinato de John Kennedy pelo rádio ou pelo barbeiro? Quando a Patrícia Poeta se despediu do Jornal Nacional, com quem você estava sentado no sofá da sala?  E no jogo seguinte à missa que o papa João Paulo II rezou no Alto da Glória, o Coxa ganhou ou perdeu?

Daqui a um bom tempo, alguém vai lhe fazer pergunta parecida:

– Na virada do ano de 2014, onde você estava enquanto os empreiteiros da Petrobrás tentavam dormir no colchonete da Polícia Federal?

2014 será um ano inesquecível. Para os brasileiros de modo geral, para os acionistas da estatal e, principalmente, para os 35 sultões da Petrobrás que passaram as festas de fim de ano em Curitiba, privados das mordomias que – em se tratando do ouro negro – só estavam ao alcance dos sultões das arábias.

Quem acompanhou a segunda posse da presidente Dilma Rousseff e desconhece a história do Rolls-Royce que tradicionalmente leva o eleito à rampa do palácio em carro aberto, também não conhece uma das vertentes da lama que agora estamos vendo a céu aberto. Para saber as origens da corrupção no Brasil é preciso voltar aos estertores do governo de Getúlio Vargas (1954), quando surgiu a expressão “mar de lama”.

Conta o escritor Lira Neto no terceiro volume de sua biografia do caudilho gaúcho que, naqueles dias de cão, pipocavam escândalos um atrás do outro, uns menores outros maiores, nos mais diversos setores da administração pública – fenômeno que levou Carlos Lacerda a cunhar a expressão que dali em diante entrou para a história do Brasil.

Naquele “mar de lama”, um desses escândalos era a “farra dos importados”, quando o governo baixou um decreto exigindo licença prévia para qualquer tipo de importação. Para evitar o desequilíbrio da balança comercial, priorizando itens de primeira necessidade em detrimento aos bens supérfluos, a medida virou um balcão de negócios com o leilão de propinas. Foi quando um senador da própria base aliada denunciou irregularidades nas licenças de importação destinadas à compra de dois automóveis por parte da presidência da República: em substituição aos Cadillac então em uso, o palácio encomendara à britânica Rolls-Royce uma limusine fechada e outra conversível com capota de lona, esta que é usada até hoje nos desfiles da Semana da Pátria.

Porém – e aí veio a “marola de lama” -, a firma importadora aproveitou a ocasião para trazer de cambulhada outros dois luxuosos Rolls-Royce, posteriormente vendidos a particulares.

Revelada a falcatrua na tribuna do Senado, o importador tentou justificar que as duas limusines e os dois outros sedans teriam sido despachados na Inglaterra para permitir ao governo brasileiro maiores possibilidades de escolha entre os modelos disponíveis. A desculpa não tinha fundamento, pois os dois Rolls-Royce encomendados para a presidência possuíam carrocerias especiais. Entre outros detalhes, o governo solicitara à fabricante o reforço de chapas de aço no para-choque traseiro e nos estribos laterais – para suportar o peso dos guarda-costas -, além de pequenos mastros para o uso de bandeiras oficiais nos para-lamas dianteiros.

Tais detalhes não constavam dos outros dois veículos, um preto e outro cinza, faturados respectivamente em nome do magnata Antônio Peixoto de Castro e da Imobiliária Santa Therezinha – coincidentemente uma das empresas pertencentes à família de Paulo Maluf.

Do mar de lama ao mar do pré-sal, a pompa e o luxo do Rolls-Royce – adquirido no lamaçal do poder – simbolizam as propinas e falcatruas que fazem deste alvorecer de 2015 um tempo para se guardar na memória e aguardar da Justiça o que vai ser dos malfeitos da República Petista do Brasil.

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