Almoço de domingo

À mesa, como convém, cada um tem suas manias. Um cerimonioso jantar no sábado à noite, com tudo o que um jantar de sábado à noite exige. Da cor do vinho à cor da gravata. Uma feijoada sabática, com toda a descontração que o feijão pede. Do calor dos amigos de sempre às calorias imprescindíveis, acompanhadas de muito colesterol in natura.

À mesa, como convém, voto no almoço de domingo como imbatível. Mania desde os tempos dos domingueiros almoços na casa da nona. Macarrão, maionese e carne assada na panela com molho ferrugem. E vinho. Na falta da nona, hoje compenso com uma lista. A lista dos almoços domingueiros, pois fazer listas também é uma delícia.

Encabeçando o rol, o almoço de domingo em casa. Churrascos à parte, camarão, bacalhau, carneiro, leitão ou uma reedição do macarrão da nona, tanto faz. Importa é não sair de casa, de preferência lá fora chovendo canivetes, é o planejamento ao longo da semana. Neste cardápio, algumas heresias: almoço de domingo não rima com feijão, peixe frito, rabada, bifes em geral, picadinho, estrogonofe, pizza (após anoitecer é um dos mandamentos do curitibano) e buchada de bode.

Domingo à mesa de restaurante, resumo a lista com duas típicas opções, das tantas que Curitiba serve. Uma, o sagrado almoço de domingo em Santa Felicidade, incomparável para zerar o QI. Dos endereços italianos, não consigo nenhuma explicação para preferir o Iguaçu. Até porque existe uma velha teoria segundo a qual em Santa Felicidade existe uma só cozinha. Uma descomunal cozinha que abastece todos os restaurantes, interligados por inimagináveis dutos subterrâneos.

Outra opção é o almoço de domingo na churrascaria do Erwin. Pra encontrar amigos que não cruzamos desde século passado, é batata. Maionese, tomate, palmito, cebola, pão, filé e basta. Agora, se você perguntar onde está a graça deste cardápio, também não sei. Sei que a varanda daquela esquina da Rua Mateus Leme é uma delícia, onde a fila de espera faz parte do show.

Fechando a lista, tem o almoço de domingo na casa da sogra. Adivinhando pensamentos, concordo que a questão é controvertida. Há os que antes preferem até morrer de tédio, almoçando rúcula e tomate seco num restaurante de hotel. E há os que já negociaram uma anistia ampla, geral e irrestrita, em território adverso.

Foi o caso de um conhecido arquiteto curitibano. O primeiro almoço de domingo na casa da noiva foi uma catástrofe. Ainda desprevenido, não sabia da lei seca. De beber, apenas gengibirra Cini. Era uma família de curitibanos ortodoxos.

No segundo almoço de domingo, a noiva sentiu a saia-justa e tratou de amenizar o desconforto. Foi aberto um precedente e os curitibanos ortodoxos serviram cerveja da Brahma, fabricada ali no bairro Rebouças. Uma única garrafa, quase morna.

Na terceira oportunidade, nosso arquiteto – com quase dois metros de altura e coração na mesma medida – arquitetou um plano audacioso para esse decisivo almoço de domingo. Chegou com jeito de pouca fome e, aparentando submissão às regras do jogo, serviu-se de um copo de gengibirra Cini, pois o verão tinha caído naquele domingo. Com a mesa posta, quando todos dirigiam-se aos lugares marcados, o robusto e sedento noivo solicitou licença para apanhar qualquer coisa no carro estacionado na calçada em frente.

Retornou abraçado a um engradado de cervejas estupidamente geladas. Acomodou as brahmas curitibanas ao lado de sua cadeira, sacou de um copo catarina e, cheio de razão, bebeu o primeiro de tantos goles.

Pediu para passar a salada e foram felizes para sempre.

Até quarta-feira, querido amigo Edson Klotz.

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