Até o tempo ajudou para um final espetacular. Mas não estou me referindo ao glorioso campeonato conquistado pelos meninos do Santos. Espetacular também foi o fecho da travessia de 100 milhas náuticas entre a Baía de Paranaguá e a Baía de Porto Belo (SC), iniciada no sábado passado e finda sob uma refrescante tempestade de quase verão, nesta segunda-feira. Além da confortável sensação de não ter dado um sinistro abraço no saudoso Ulysses Guimarães, durante o périplo marítimo.
Marinheiro de primeira viagem em mares de céu aberto, fui parte da tripulação que conduziu o veleiro Squalo à temporada de verão no litoral de Santa Catarina. Na qualidade de sabujo, por força da inexperiência. Sabujo, você bem imagina, não é topo de carreira na hierarquia marítima: depois do capitão, o último. E como éramos em três, sobrou pra mim, um mestre arrais de navegar apenas baías. Mas não me saí tão mal na tarefa: com aplausos, comandei o leme e até assei um robusto pampo de dois quilos e meio, vindo à bordo no arpão do mergulhador Amilton Dutra, catarina que conhece pelo nome e endereços, grande parte das garotas e garoupas do litoral sul.
Do comandante Murilo Cassol, o Squalo (tubarão, em italiano) é um veleiro de cruzeiro de trinta pés, bem apetrechado e valente, com acomodações para quatro tripulantes, uma cozinha onde o vice-governador eleito Orlando Pessuti não fritaria uma sardinha e um convés bem razoável para, digamos, uma aventura “al mare” com a última capa da Playboy.
Partimos sábado passado do Iate Clube de Paranaguá, para um devido pernoite nas Encantadas da Ilha do Mel, onde soprava um vento nordeste, no feitio para lamber as delícias do litoral. Mas na manhã seguinte, São Pedro soprou do sul. Então, para desdita de qualquer velejador, o Squalo precisou roncar motor em direção ao farol da Ilha da Paz, em São Francisco do Sul, onde amarramos os cabos nos braços de Morfeu. No roteiro, o já citado pampo oriundo das ilhotas de Itacolomi, pra compor o cardápio de mais três sargos e uma garoupa, que estavam dando sopa no costão da Ilha Velha, irmã siamesa da Ilha da Paz.
Daí pra frente, foi muito mais alegria. O vento nordeste rajou no meio da manhã de segunda-feira e nos levou de través em direção à Baía de Porto Belo, onde adentramos no anoitecer, coroados por uma tempestade de lavar a alma já cheirando maresia. Claro, nesse ínterim, tivemos outras imprescindíveis baixas: um dos sargos e a garoupa, devidamente escalados e produzidos num exercício de cozinha coletiva, sob inspiração do mestre Malu Malucelli.
de ilha em ilha, de cabo a rabo, passamos em revista o próximo verão do litoral sul. Para felicidade geral da moçada carente de um bronze, atestamos que está tudo nos conformes. Torcendo pro “el niño” não atrapalhar, é esperar janeiro, fevereiro e março. E correr para o abraço.
Ainda de ilha em ilha, passamos ao largo da Ilha das Cobras – onde tinha qualquer ambição de me tornar caseiro, indicado pelo governador eleito Roberto Requião – e prospectei outras possibilidades: a Ilha Velha já tem caseiro firmado, o prestimoso caseiro Juarez, criador de tatus no quintal. Tem as ilhas Tamboretes, Feia, Araras e dos Remédios, fora de cogitação. Sobrou a ilha de Porto Belo, uma belíssima opção. Beleza pura seria ser caseiro da ilha de Floripa. Mas aí depende de eleição e a coisa fica bem mais cara e complicada.
Então, até sexta-feira, porque navegar é preciso.
DANTE MENDONÇA
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