O forasteiro que cruzasse a fronteira daquela Alemanha seria recebido por uma senhora de olhar azul, com porte de chefe de estado. Apresentações podiam ser feitas em alemão, inglês, francês e até em latim – quatro entre as oito línguas (ou seriam dez) com que Ingeborg Marie Leonie Rust Tigges recebia no restaurante Hummel-Hummel, inaugurado em 4 de fevereiro de 1981.
Inge, assim os amigos tratavam a "viking do Largo da Ordem". Nascida em 1933, nos abandonou em 1996. Viúva de diplomata, professora de línguas, criadora de cavalos de raça, era uma bela e doce mulher que se travestia de general prussiano, quando assim preciso. Não por acaso nasceu em Essen, cidade dos Krupp, senhores da guerra. Criada na fazenda da família, da janela do quarto divisava Schwarzwald, a Floresta Negra. Por coincidência, e no mesmo Largo da Ordem, do Hummel-Hummel ela também divisava o restaurante Schwarzwald, agora mais conhecido como Bar do Alemão.
Na Segunda Guerra, viveu aquela Alemanha. Dirigia tratores com sete anos de idade, por falta de mão-de-obra na fazenda, e chegou a ver Hitler diversas vezes. Uma delas em Munique, numa Oktoberfest. Mas não gostava da voz do führer. O pai, coronel do exército alemão, seguira para o front da Rússia. Restou três anos na Sibéria. Tinha 1,98 de altura, voltou um quase cadáver de 38 quilos. Ingeborg lembrava que, em 1935, seu avô Otto Rust renunciou ao cargo de procurador-geral de Berlim e Colônia porque era católico e também não gostava da voz de Hitler. Preferia pessoas de boas maneiras e melhores berços: toda a família era monarquista e Ingeborg fazia muito gosto na realeza.
Tigges era um homem de sorte. Com uma exuberante esposa, levou belo dote: Ingeborg trouxe fortuna de diversas heranças e abriu com o marido a Aeromar Turismo, primeira agência de viagens de Curitiba. Ficava na Rua XV, em frente à Casa da Manteiga, e todos os clientes viajavam pela Real Aerovias ou pelas asas da Panair.
Também na concorrida Rua XV de Novembro, em 1955 Ingeborg montou um bar, o Trocadero. Imaginou e realizou um negócio para as senhoras saírem à tarde e terem onde sentar, conversar, fazer um lanche. Para senhoras com o figurino da proprietária, bem entendido, com as calças compridas que na época eram escândalo. No nono mês da gravidez, comprou o ponto por 18 mil marcos. Era um corredor estreito e comprido para 70 pessoas, com um reservado atrás para quatro mesas. Servia de tudo, inclusive comida alemã: costeletas, paprikagulasch, wiener schnitzel e todos os doces alemães.
A senhora Ernst Tigges embalou o Trocadero por quatro meses e se recolheu para cuidar da filha Hasi, recém-nascida. Gabriela Maria Petra Claudia Brigitte Rust Tigges saiu tão bonita e inteligente quanto a própria mãe. Formou-se no exterior, enquanto nossa grande rainha da Banda Polaca no Carnaval de 1976. Hoje mora com o marido e filhos nos Estados Unidos.
Dez anos sem Ingeborg Marie Leonie Rust Tigges -minha estimada madrinha de casamento – e dez anos sem o "filé à hamburguesa". Um homem carregando dois baldes d’água – Hummel-Hummel – é o símbolo de Hamburgo.