Razão tinha o grande brasileiro Darcy Ribeiro, orgulho da nação. Ele sempre lembrava o quanto ainda nos resta aprender com os nossos irmãos indígenas. Quando absolveram o mensaleiro João Paulo Cunha, o povo unido devia sair às ruas para protestar num só brado retumbante: Airakorê!
José Boiteux foi um formidável jornalista, escritor e político catarinense. Nasceu em Tijucas, em 1865, e vem de uma geração que forneceu nomes e sobrenomes para um punhado de cidades de Santa Catarina. O próprio José Boiteux é nome de um acolhedor município do Vale do Itajaí, de colonização predominantemente alemã e indígena.
Secretário de Estado, deputado federal e estadual, trabalhou com o conselheiro Manoel da Silva Mafra, advogado de Santa Catarina na questão de limites com o Paraná. Fundou em 1932, a Faculdade de Direito de Santa Catarina. Apesar dos cargos exercidos, e de tão honesto, chegou aos sessenta anos de idade sem contar com um emprego estável, com a família passando necessidades. O então governador Hercílio Luz, com quem vinha servindo desde a proclamação da República, impressionado com a situação de miséria do velho amigo de tão bela biografia, nomeou-o então juiz de Direito e promoveu-o a desembargador.
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José Boiteux era de Tijucas, mas não tinha o dedo torto. Excepcionalmente, porque reza o folclore catarina que todos os tijucanos têm o dedo torto de tanto carregar gaiolas.
Em outra lenda do folclore catarina, José Boiteux é personagem de uma história contada com muita graça por Horácio Braun – jornalista, escritor, filósofo, historiador e, principalmente, nome de uma das melhores cervejas de Santa Catarina: o Chope do Horácio, produzido especialmente pela Zehn Bier, de Brusque. Em Blumenau, Braun é ainda proprietário do "Botequim Colonial 69", no interior do Shopping Neumarkt, onde possui um impressionante e raro armário de bebidas com dez metros e meio de altura e seis de largura.
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Conta Horácio Braun que certa vez José Boiteux estava visitando os imigrantes italianos da região de Nova Trento, onde tinha parentes, quando foi informado que além das nascentes do Rio Alferes, existia uma tribo de índios botocudos que, por incrível que parecesse, eram, em sua maioria, eleitores.
Antropólogo curioso, José Boiteux botou a mochila nas costas e foi conhecer os índios. Não sem antes receber um alerta dos italianos:
– Atento, signore: indiarada botocuda sono un tanto desbocada!
E Boiteux subiu o rio rumo à tribo, onde foi muito bem recebido, para seu espanto. Antes de se despedir, e para não perder a viagem, o deputado fez um comício para os eleitores botocudos:
– Se eu for reeleito, vou fazer com que sejam preservadas as reservas indígenas!
E os índios gritavam em uníssono:
– Airakorê!
– Se eu for reeleito, os índios vão ter direito a saúde gratuita!
– Airakorê!
– Se eu for reeleito, os índios vão ser muito mais respeitados!
– Airakorê!
Assim que encerrou o discurso, diz a lenda, Boiteux pediu para ter uma audiência em particular com o morubixaba e foi conduzido por um indiozinho bastante jovem, que, apontando o dedo em direção a um morro, disse:
– Andando por aqui… Esse caminho ter menos pirambeira. Mas tomar cuidado para não pisar no airakorê das vacas!
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Nas cercanias de município de José Boiteaux, Pomerode é a cidade mais alemã do Brasil, com invejáveis índices de qualidade de vida da população. Números de fartura que, estendidos nacionalmente, fariam do Brasil a mais completa tradução das promessas políticas de palanque. Por outro lado, Pomerode carrega uma outra velha lenda catarina e o estigma de ter o maior número de suicídios no Brasil. Esses números de mortalidade – estatística divulgada pela primeira vez em reportagem da revista Visão, na década de 1970 – não impedem o humorista Horácio Braun, acrescentar mais graça à lenda:
– Em Pomerode, para comprar meio metro de corda é preciso autorização do juiz da Comarca.