1. Ai de ti, Ilha do Mel, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz, decalcada na voz de Rubem Braga, te abalará até as entranhas.
2. Ai de ti, Ilha do Mel, porque a ti chamaram Doce Paraíso, e cingiram tua pele com tatuagens de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.
3. Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas partem o teu istmo ao meio e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tantas iniqüidades e de tanta malícia.
4. Assim permissiva, quem te governará? Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas.
5. São tantas edificações pirata, e elas se postam diante do mar qual rasas muralhas desafiando o mar; mas elas se abaterão.
6. E os escuros peixes nadarão nas tuas aléias e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o vento da Patagônia lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder o verde que ainda te resta; e não restará tijolo sobre tijolo.
7. E os polvos habitarão os teus dormitórios e os caranguejos as tuas barracas; e os meros se entocarão em tuas pousadas, desde as Encantadas até a Fortaleza.
8. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.
9. Ai daqueles que dormem em leitos refrigerados de pousadas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.
10. Ai daqueles que passam em seus iates, lanchas e jet skis, erguendo vagas, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.
11. Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das pranchas de surfe instrumentos de concupiscência.
12. Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.
13. Ai de ti, Ilha do Mel, porque os badejos e as garoupas estarão nas fossas de teus esgotos, e os meninos da Praia do Farol, quando chegar o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal da Galheta, ou lançarão suas linhas dos altos dos navios da marinha mercante.
14. E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.
15. Por que rezais em vossos templos, fariseus da Ilha do Mel, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?
16. Antes de te perder eu agravarei a tua demência – ai de ti, Ilha do Mel! Os gentios de tuas praias avançarão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.
17. E tu, Roberto Requião, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio na Ilha das Cobras, porque ali, entre algas, ela habitará.
18. E nos restaurantes os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e um homem-rã da Petrobras tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas sociais, no tempo em que havia colunas e havia colunistas.
19. Pois grande foi a tua vaidade, Ilha do Mel, e fundas foram as tuas mazelas; já quase te partes em duas, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias da Baía de Paranaguá e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.
20. A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação de forasteiros, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil nativos miseráveis – tudo passará.
21. Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas parabólicas; porém muitos peixes morrerão por se banharem em teus esgotos a céu aberto.
22. Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde a Gruta das Encantadas até a Fortaleza Nossa Senhora dos Prazeres, porque eis que sobre ela vai a minha fúria, e a destruirá. Canta a tua última canção, Ilha do Mel!
Até domingo; e este texto foi decalcado do texto original de Rubem Braga, “Ai de ti, Copacabana”, escrito em janeiro de 1958. (Do livro Rubem Braga -200 crônicas escolhidas – Editora Record)