Água Verde que te quero verde

No início da semana, quando a Caixa Econômica Federal anunciou que o prêmio de R$ 23,8 milhões da Mega-Sena seria pago para um feliz apostador de uma lotérica do bairro Água Verde, a notícia soou como se fosse o início do fim do mais tradicional bairro da classe média curitibana. Com tantos milhões numa só conta bancária, o feliz ganhador iria desestabilizar a distribuição de renda no bairro que é orgulho de Curitiba, retrato do Brasil que deu certo. Se no vizinho Batel a alta burguesia e a concentração de renda se destacam, no Água Verde somos todos iguais. Ou quase iguais, com a diferença de um segundo carro na garagem ou uma suíte a mais no apartamento de três quartos, com churrasqueira.

Mas não, não choveu numa só horta. Uma vez classe média, sempre classe média, graças a Deus. Quando se esperava um dissonante milionário sob as árvores do Água Verde, eis que a Caixa Econômica anuncia não apenas um feliz ganhador, mas sim 12 felizes ganhadores. A aposta foi feita em sete cartões e os ganhadores compareceram na terça-feira a uma agência da CEF para retirar o prêmio. Ou melhor, não retiraram: aplicaram o montante em diversos fundos do mesmo banco, onde podem render aproximadamente 238 mil mensais. Ou, quase 20 mil reais de renda para cada um, ao mês. Os sortudos são colegas de trabalho de uma empresa. Alguns são parentes, mas todos moradores de Curitiba, e do mesmo bairro, presume-se, pois nada mais Água Verde do que isso…

Ganhar na Mega-Sena é a última esperança. E a esperança é a última que morre. Sendo verde a cor da esperança, os ganhadores do prêmio milionário não poderiam ser de outro bairro: essa brava gente do Água Verde merece. Localizado na região central de Curitiba, a fonte inspiradora do nome vem do Rio Água Verde, que nasce e cruza toda a extensão do bairro, até desaguar nas águas do Rio Belém, no Prado Velho. Antigo reduto de imigrantes, colônia instalada oficialmente em 1878, é da lavra do próprio presidente da Província, Manoel Pinto de Souza Dantas, o relatório enviado à Assembléia Legislativa, em 1880:

“Deram origem a esta colônia 36 famílias italianas compostas de 166 pessoas que obtiveram lotes no lugar denominado Água Verde, mediante cartas de aforamento concedidas pela Câmara Municipal. Essas famílias foram auxiliadas pelo Governo Geral com a quantia de 50$000 (cinquenta mil réis) cada uma, para a construção de casas. Daí por diante, sem mais gastos para o Estado, foram se estabelecendo naquelas paragens muitas famílias imigrantes, povoando-se assim uma imensa área outrora improdutiva. Apesar da aridez dos terrenos a que me refiro, muito têm conseguido alguns de seus esforçados ocupantes e, posso mesmo avançar que, dentro em pouco, oferecerão um belo exemplo de colonização espontânea”.

O belo exemplo foi dado, senhor Dantas. Onde hoje é o Shopping Água Verde, o Armazém do Chico Fruet prosperou, como também prosperou o Armazém do Moletta. Prosperaram também os negócios dos Todeschini, dos Cunico, dos Gabardo, dos Levoratto, dos Vardânega, dos Ricetti, dos Maito, dos Cortiano, dos Rigoni, dos Pizzato, dos Ceschin, dos Mio, dos Bonato, dos Ceccon, dos Ceccatto, listando algumas das primeiras famílias que chegaram em 1870.

Essa brava gente “sem terra” subiu a Serra do Mar e foi até o fim da picada: descampados, banhados e matas nativas deram lugar às casas com lambrequins, parreirais de uva, armazéns, estrebarias e casas comerciais. Hoje mais que um bairro, uma cidade auto-suficiente, com seus arranha-céus, shoppings e respeitável cardápio de bares e restaurantes.

Se no início da saga ganharam cinquenta mil réis do Estado, devolveram o mesmo tanto e muito mais, multiplicado pelos 476,4 hectares do bairro quase tão verde quanto os parques da cidade.

Os 23,8 milhões da Mega-Sena estão em boas mãos.

Até domingo, que no Água Verde é um belo dia para lavar o carro na calçada.

Grupos de WhatsApp da Tribuna
Receba Notícias no seu WhatsApp!
Receba as notícias do seu bairro e do seu time pelo WhatsApp.
Participe dos Grupos da Tribuna