O cartunista Luiz Antônio Solda lançou também no Flip seu mais recente livro de cartuns, a obra mais importante do humor gráfico brasileiro dos últimos anos. De encontros, desencontros, afetos e desafetos, ele nos faz um relatório do que foi dito e do que deve ser dito. Antes tarde do que nunca.
Parati, a Festa Literária Internacional, foi uma loucura. Não consegui ingresso para quase nada (tudo estava esgotado), mas festejei durante três dias. Falei com Angeli e lhe entreguei meu livro; também o Veríssimo, na corrida, recebeu o tal e o Ziraldo (levado de helicóptero) me deu um forte abraço e um beijo na face. Estava na cidade com algumas pessoas de Curitiba, participando do Off Flip – Circuito Paralelo de Idéias, como convidado do Casarão do Cunha, o Beto Batata de lá. Hermínio Belo de Carvalho e Paulo César Pinheiro deram um show na casa com um bando de músicos de primeira. Eu não sou muito a fim de samba, aquele laiá laiá repetitivo e meio sem significado, mas insisti na coca-cola e resisti, que me perdoe o Roberto Amorim.
Na noite de lançamento do meu livro Solda, cartuns (também lançavam livros Paula Foschia, Paulo Polzonoff, César Rey Xavier e Antônio Thadeu Wojciechowski), eu estava sentado tranqüilamente quando apareceu um rapaz desenxabido e apresentou-se a mim:
– Muito prazer, sou o Paulo Polzonoff.
– Eu sei, disse eu.
– Quero lhe pedir um milhão de desculpas pela crítica que fiz aos seus livros.
– Só um milhão?
– É que eu estou mudando. Tenho apenas 26 anos de idade, sabe como é a juventude… Mas estou mudando. Quer que eu faça uma retratação pública?
– Não, muito obrigado. Que merda! Rimbaud escreveu tudo até os 17 anos e foi ser contrabandista de armas. Com 26 anos eu já era o bambambam do cartum em Curitiba!
– Prazer, eu sou um poeteco de Curitiba, disse Thadeu Wojciechowski, na mesma mesa.
– Quanto custa seu livro?, perguntou Punhetoff.
– 40 reais.
– Tenho que pagar agora?
– Não, pode pôr na conta do restaurante.
(Enquanto isso pipocavam os flashes de máquinas fotográficas sobre nós, Lina Faria, Julio Covello, João Urban, Nego Miranda e todo aquele pessoal que carrega maquininhas digitais documentando o encontro fatal).
– Oi, eu sou Paula Foschia, namorada do Polzonoff, me dando seu livro Primavera Eterna (ainda não li).
E tentou me convencer que ela estava dando um jeito na vida do Polzonoff, safado, tirando ele dessa vida de crítico cricri, cricrizão. E me apresentou a seguinte dedicatória: “Para o Solda, que também é amigo da Clarah e só pode ser um cara mui bacana, portanto que este seja o início de uma nova amizade”. Um beijo. Aí eu falei pra ela:
– Pô, você é aquela amiga que Clarah me falou. Com amigas como você ela não precisa de inimigas! Mandei ela te cobrir de chineladas! Continuo achando o mesmo.
Levantei-me e fui pegar uma coca, acendi um cigarro e fiquei com uma baita pena daquele sujeitozinho se escondendo entre as pessoas que estavam na mesma mesa, que de vez em quando levava uma taça de vinho à boca, numa cara que garanto ser a mais sem vida deste planeta, vazia, sem expressão nenhuma. Era o que restara do Punhetoff. O que ajudou a matar Sebastião Uchoa, que eu nem sequer gostava.
– Está vendendo seu livro, perguntei?
– Quero ver se vendo alguns exemplares dessa merda, disse, referindo-se à porcaria que publicou pela Candide, O Cabotino.
Tomei mais duas cocas e fui feliz para o resto da vida, enquanto eles se retiravam com o rabo entre as pernas. Alice Ruiz presenciou tudo e recusou-se a chegar perto da nossa mesa enquanto ocorria o pastelão. Domingos Pellegrini tem toda a razão quanto ao nosso criticozinho. Abraços, Ah, Paula Foschia chamou o Fun House, da Clarah Averbuck, de “aquele inferninho deles”. E não encontrei o Bortolotto, que, dizem, estava na cidade. Todas as estrelas que faziam parte da Feira estavam mais bem escoltados que astros de rock. Continuo na linha, desligando. Câmbio.
Solda
Até sexta-feira; e, em solidariedade ao Solda, assino embaixo.