Adeus aos copos

O Brasil tem leis que pegam, outras que não pegam porque roubaram a cola. A lei sequíssima, que proíbe os motoristas de beber qualquer quantidade de bebida alcoólica, é uma lei que pode pegar. Pode pegar metade da população de calça curta. Agora não é mais o freguês que precisa beber com moderação. Com 40% de queda nas vendas, agora é o dono do bar que precisa se cuidar para não beber o estoque.

Só o que dói no bolso pode provocar a mudança de hábitos. Antes o cidadão ia ao boteco da esquina tomar dois copos de cerveja e voltava sozinho. Agora, é preciso voltar ao lado de um advogado. Com uma advogada, melhor ainda.

Táxi nem pensar. Mais fácil chamar uma viatura do Corpo de Bombeiros. Bons tempos aqueles quando dizíamos que a melhor feijoada com caipirinha era aquela em que uma ambulância nos esperava no lado de fora do restaurante. Hoje, para não vomitar no colo do delegado, o marido liga para a mulher:

– Querida, venha correndo pagar a fiança e me tirar da cadeia!

– O que aconteceu?

– Tomei uma batida de limão e uma batida da polícia!

O amigo do balcão sabe quanto de álcool é agora permitido beber antes de dirigir? Absolutamente nada! E sabe quanto tempo o álcool permanece no sangue após o consumo e depois de quanto tempo o motorista poderá dirigir? Se estiver de ressaca e com sintomas provocados pela grande quantidade de álcool consumida, o melhor é ir à missa. E evite o bafo do padre.

Tolerância zero até na sobremesa. Em Santa Felicidade, nem é bom chegar perto do sagu com vinho. No Restaurante e Bar Palácio, esqueça o “mineiro de botas”, que é flambado com conhaque. Com a lei seca radical vai nascer uma nova tendência de mercado: as baladas da vizinhança. Quem mora no Bacacheri, vai se encontrar com a turma no Bar do Edmundo. Quem mora no Juvevê, toma uma e outras no Bar Luzitano. Quem mora no Portão, o melhor boteco é o mais próximo do portão de casa. E quem estiver planejando casar os filhos no Santa Mônica Clube de Campo (distante 25 quilômetros de Curitiba), que consulte antes um advogado. Todos os convidados podem terminar a noitada no xilindró, inclusive o padre, e os pais dos noivos podem ser acusados de corresponsabilidade, por incentivo e indução ao crime.

Casamentos, aniversários, formaturas, comemorações de fim de ano, todos estão obrigados a comemorar com Gengibirra Cini. Sem imunidade parlamentar, na campanha eleitoral não será servida uma mísera cerveja quente em Santa Felicidade, onde o metrô se faz urgente. Ou meia Curitiba ainda vai assistir ao Domingão do Faustão no xilindró.

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