Está rolando entre internautas este relato de Silvio Malta Rangel Drummond, com a seguinte recomendação da autora: “Espero que este texto chegue em tempo a alguma autoridade competente e patriota”.
As duas semanas em Manaus foram interessantes para conhecer um Brasil um pouco diferente mas, chegando em Boa Vista (RR), não pude resistir a fazer um relato das coisas que tenho visto e escutado por aqui. Conversei com algumas pessoas nesses três dias, desde engenheiros até pessoas com um mínimo de instrução.
Prá começar, o mais difícil de se encontrar por aqui é roraimense! Para falar a verdade, acho que a proporção de um roraimense para cada 10 pessoas é bem razoável: tem gaúcho, carioca, cearense, amazonense, piauiense, maranhense e por aí vai. Portanto, falta uma identidade com a terra.
Aqui não existem muitos meios de sobrevivência: ou a pessoa é funcionária pública – e aqui quase todo mundo o é, pois em Boa Vista se concentram todos os órgãos federais e estaduais de Roraima, além da Prefeitura é claro ou, não sendo funcionária pública, a pessoa trabalha no comércio local ou recebe ajuda de programas do governo. Não existe indústria de qualquer tipo. Pouco mais de 70% do território roraimense é demarcado como reserva indígena, portanto restam apenas 30%, descontando-se os rios e as terras improdutivas (que são muitas!), para se cultivar a terra ou para a localização das próprias cidades.
Na única rodovia que existe em direção ao Brasil (liga Boa Vista a Manaus, cerca de 800km) existe um trecho de aproximadamente 200km (reserva indígena Waimiri Atroari) por onde você só passa entre 6h da manhã e 6h da tarde! Nas outras 12 horas a rodovia é fechada pelos índios (com autorização da Funai “e dos americanos”) para que os mesmos não sejam incomodados!
Detalhe: você não passa se for brasileiro, mas o acesso é livre aos americanos, europeus e japoneses! Desses 70% de território indígena, diria que em 90% dele ninguém entra sem uma grande burocracia e autorização da FunaiI! Detalhe: americanos entram na hora que quiserem! Outro detalhe: se você não tem uma autorização da Funai, mas tem a dos americanos, então você pode entrar! A maioria dos índios fala a língua nativa além do inglês ou francês, mas a maioria não sabe falar português.
Dizem que é comum, na entrada de algumas reservas, encontrarem-se hasteadas bandeiras americanas ou inglesas! É comum se encontrar por aqui americanos tipo “nerds” com cara de quem não quer nada, que “vieram caçar borboleta e joaninha e catalogá-las” mas, no final das contas, pasmem, se você quiser montar um empresa para exportar plantas e frutas típicas como cupuaçu, açaí camu-camu etc., medicinais, ou componentes naturais para fabricação de remédios, pode se preparar para pagar royalties para empresas japonesas e americanas que já patentearam a maioria dos produtos típicos da Amazônia!
Pergunto inocentemente às pessoas por que os americanos querem tanto proteger os índios e a resposta é absolutamente a mesma: “Porque as terras indígenas, além das riquezas animais e vegetais, da abundância de água, são extremamente ricas em ouro (encontram-se pepitas que chegam a ser pesadas em quilos), diamante, outras pedras preciosas, minério e, nas reservas ao Norte de Roraima e Amazonas, ricas em petróleo”. Parece que as pessoas contam essas coisas como que num grito de socorro a alguém que é do sul, como se eu pudesse dizer isso ao presidente ou a alguma autoridade do Sul que vá fazer alguma coisa. Saio daqui com a quase certeza de que, em breve, o Brasil irá diminuir de tamanho. Acorda Brasil!
Até domingo, avisando aos que restaram em Curitiba que amanhã o bar Ao Distinto Cavalheiro (esquina da Saldanha com Visconde do Rio Branco) vai servir picadinho de carne como deve ser e, de sobremesa, a também sumida “Romeu e Julieta”. Com chorinho pra embalar o apetite.