Neste momento, o doutor René Ariel Dotti se encontra em Paris, onde participa da reunião do Conselho Diretor da Associação Internacional de Direito Penal, na condição de presidente da AIDP- Brasil. Antes tarde do que nunca, gostaria de recomendar ao mestre um delicioso farnel de viagem, um livro que tomei emprestado da estante do arquiteto Bruno De Franco. Isso caso o doutor René Dotti já não o tenha lido, o que é bem provável.
Achados da Geração Perdida – Receitas e anedotas da Paris dos anos 20, de Suzanne Rodriguez-Hunter (Editora Rocco), é uma rica combinação de culinária, relatos de vida, hábitos, grandes bebedeiras e grandes banquetes, a convivência de alguns dos maiores artistas na borbulhante Paris da década de 20. Com leves 250 páginas, já no prefácio a autora cita um velho restaurante parisiense, o Au Pont Marie, motivo pelo qual lembrei do mestre René Dotti. Não faz muito tempo, pelo telefone, trocamos informações sobre esse restaurante, citado no livro Navegação de cabotagem, de Jorge Amado. Na autobiografia, Amado conta que nesse bistrô ele fazia seus almoços domingueiros com Zélia Gattai. Mas só dava pistas do endereço: se localizava na Ilha de Saint Louis, servia comida francesa tradicional, boa e barata, à beira do Rio Sena.
Mesmo assim, não foi difícil achar o Au Pont Marie, na Rue des deux ponts. Doutor René Dotti achou, e nós também achamos o pequeno bistrô que era tudo aquilo que Jorge Amado escreveu. E muito mais.
Em Achados da Geração Perdida, a autora revela o DNA do Au Pont Marie: “Um dos lugares que descobri era o Au Pont Marie, um restaurante perto da minha casa na Ilha de Saint Louis. Nos anos 20, quando se chamava Au Rendezvous-Mariniers, pertencera à charmosa Mme Le Comte. O Rendezvous tinha uma fama fora do comum, entre os americanos, de servir comida barata e boa – eram freqüentadores constantes John Dos Passos, Robert MacAlomon, Sherwood Anderson, Harry Crosby e Virgil Thompson. Hemingway gostava tanto do lugar e de seu proprietário que colocou ambos em O sol também se levanta. Lendo-o sentada no cais do Sena, numa tarde preguiçosa, quase setenta anos depois da publicação, encontrei a passagem em que Jack Barnes e o amigo Bill comem galinha assada enquanto brincam com Mme Le Comte”.
(Jantamos no restaurante de Madame Le Comte no canto mais distante da ilha… Bill havia comido no restaurante em 1918, logo após o armistício, e Madame Le Comte fez uma festa enorme ao vê-lo… Fizemos uma boa refeição: galinha assada. vagem, purê de batatas, uma salada e um pouco de torta de maçã e queijo… Depois do café e uma fine (a saideira) pedimos a conta, que veio, como sempre, escrita a giz numa lousa; isso era, sem dúvida, uma das “singularidades” do lugar; pagamos, sacudimos as mãos e saímos…)
Até hoje, quase 75 anos depois, americanos flanam com uma cópia de O sol… na mão, procurando refazer os passos daqueles dois.
As receitas originárias desse “Jantar de Ernest Hemingway no canto da Île” estão na obra, e fazem parte da experiência que foi a gênese desse primeiro livro de Suzanne Rodriguez-Hunter, concebido e elaborado durante o ano em que viveu em Paris.
Cada capítulo é dedicado a uma personalidade. Assim, encontramos a história da festa que Picasso ofereceu a Henri Rousseau, finda numa bebedeira literalmente histórica, e o cardápio com suas respectivas receitas: Riz à la valencienne, Tartes de confiture à Marie Laurencin e vinho, muito vinho. “Era impossível para qualquer um dos que ficaram dizer exatamente como terminou a festa”, escreveu André Warnod, “já que estávamos muito sedentos e a aguardente era farta”.
Assim se acha, assim se perde. O engenheiro agrônomo Paulo Roberto Popp voltou recentemente de Paris e nos trouxe a triste notícia: o restaurante Au Pont Marie já não existe mais. O lendário Au Rendezvous-Mariniers, de Ernest Hemingway, depois Au Pont Marie, de Jorge Amado, agora é um restaurante chinês.
Até domingo, se possível no nosso Île de France, que também é um achado.