?A primeira vítima da guerra é sempre a verdade? – devia estar pensando lá com suas lentes de longo alcance o fotógrafo libanês Adnan hajj, da Agência Reuters, autor de falsas fotografias retratando os horrores do atual conflito no Oriente Médio.

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Uma foto vale por mil palavras – mas vá dizer isso sem uma palavra, completa Millôr Fernandes -, ou por mil mentiras. Na última segunda-feira, a agência Reuters admitiu publicamente que um dos seus repórteres fotográfico free-lance é autor de não uma, mas de pelo menos duas fotografias retocadas com o uso do programa gráfico Photoshop. A agência Reuters, fundada em 1851 pelo alemão Julius Reuter e até hoje uma das mais respeitadas do mundo, retirou todas as fotos do infrator de seu banco de dados e encerrou o contrato com o profissional. Constrangida com a desonestidade que a própria agência considera como ?a mais grave infração de padrões da Reuters?, os editores instituíram um procedimento de edição mais rigoroso para a cobertura da carnificina que está comovendo o mundo.

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De Londres, conta Beatriz Singer para o Observatório da Imprensa: ?Uma das imagens mostrava rolos de fumaça negra saindo de prédios da capital libanesa após ataque aéreo de Israel. A manipulação consistiu em intensificar a fumaça e a destruição dos locais afetados. Ao descobrir a infração, a Reuters começou a investigar outros trabalhos do fotógrafo e encontrou mais uma imagem adulterada. Desta vez, um caça F-16 israelense sobrevoando o sul do Líbano foi modificado para que o número de mísseis sendo lançados aumentasse de um para três. A Reuters tem 920 fotos de Hajj em seu banco de dados, das quais 43 são do conflito iniciado em 12 de julho. Embora afirme que duas manipulações não significam que todas as imagens foram alteradas, a agência julgou prudente retirar de circulação todas as fotos do infrator.?

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A imagem mentirosa e a informação destorcida são dos mais graves pecados que pode cometer um jornalista. Sem deixar de considerar alguns outros pecados veniais cometidos no cotidiano que, de tão corriqueiros e sem maiores estragos de imagem, passam desapercebidos pela opinião pública.

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A verdade fora de foco não é privilégio dos que hoje manipulam a imagem no computador, usando a ferramenta da mentira. Bem antes do programa gráfico Photoshop, os retratos eram retocados com pincel, guache e nanquim. Com o mesmo efeito, para o malfeitor.

Na década de 50, dois grandes jornais digladiavam-se no Paraná. Ambos matutinos, os veículos representavam duas alas políticas que se alternavam no poder e, para tanto, travavam uma elegante guerra de babuínos – isso se uma guerra com excrementos pode ser considerada elegante.

Numa dessas alternâncias de poder, o governador que acabara de ser empossado convidou todos os proprietários de jornais – desafetos, inclusive – para um almoço em palácio. Antes da ?santa ceia?, porém, o governador recebeu os poderosos da opinião pública em seu gabinete de trabalho para a fotografia oficial. O mandatário ladeado pelos jornalistas e, na paisagem, os vetustos móveis do gabinete governamental. Em pontas opostas, na prudente distância, os dois grandes adversários da imprensa.

No dia seguinte, a mesma imagem oficial foi estampada na primeira página de todos os jornais da capital. O clichê da fotografia em preto e branco, cinco colunas, título e legenda com as devidas reverências. Tudo como deve ser, com uma única ressalva: na foto publicada por um dos jornais antagônicos, o dirigente adversário não constava do retrato. No lugar do posudo jornalista, exibia-se um armário do gabinete. Obra e arte do artista da casa, mestre do pincel, guache e nanquim.

Para os padrões das pendengas políticas de então, o Photoshop não faria melhor.