A fotografia de uma conhecida personalidade numa reunião social, erguendo um copo de bebida, é a receita para destruir uma reputação. E imprima-se. Com uma imagem do gênero, realizada na OktoberFest de Blumenau, o jornal The New York Times ilustrou uma reportagem especulando acerca dos hábitos etílicos Mr. Da Silva, como o jornalão americano trata Luiz Inácio Lula da Silva.

No Paraná, temos uma história exemplar, tendo como personagem um dos maiores homens públicos paranaenses: o ex-governador e ex-ministro da Agricultura Bento Munhoz da Rocha Neto. Candidato a um novo mandato, ele foi fotografado numa reunião social, de smoking e com um copo na mão. Uma foto casual, como tantas nas colunas sociais. Mas esta foto de Bento Munhoz da Rocha não foi casual, não saiu no The New York Times, nem nas colunas sociais. Saiu na primeira página da Tribuna do Paraná, em 1965, como se fosse um registro político casual.

Ao contrário de Lula, que ganhou o mundo nas páginas do NYT, a casual foto de Bento Munhoz da Rocha virou panfleto e ganhou os quatro cantos do Paraná, pelas mãos de seus adversários políticos. Graças a uma casual foto com um copo na mão, Bento ganhou um retrato distorcido. Na foto transparecia a imagem de intelectual que de fato Bento o era: com os olhos intumescidos e levemente vermelhos, próprios de quem atravessava madrugadas lendo e escrevendo. O copo na mão faria perfeitamente parte do figurino, não fosse o retrato retocado pelos adversários: como se não bastasse o charme, a inteligência e a biografia, passou a ser, acima de tudo, um consumado boêmio.

Com o carimbo na testa, mesmo assim o grande orador percorreu a campanha encantando os paranaenses. E foi justamente sob os aplausos de milhares de eleitores que, ao subir no palanque, tropeçou e quase caiu. Um acidente casual, não fosse a presença de atentos adversários. Era o que faltava: Bento Munhoz da Rocha não perdeu a elegância, mas perdeu a eleição.

Temos a honra de compartilhar na Redação de O Estado do Paraná com um irmão de Bento Munhoz da Rocha, o jornalista Rafael Munhoz da Rocha. Das lembranças, ele nos conta que parou de fumar depois de assistir o irmão, no leito de morte: vítima do cigarro, Bento sempre fumou e morreu fumando.

Pelo prazer, foi vítima do cigarro. Politicamente, foi vítima da bebida; apesar de não fazer jus à fama. É Rafael Munhoz da Rocha quem testemunha: o ex-governador pouco bebia. Ou bebia socialmente, como se diz. Bem-humorado, Bento até lidava bem com a situações. No auge da campanha, se divertiu com o conselho recebido do repórter Milton Camargo: “Bento, você não pode dizer que não bebe: todos os pinguços são seus eleitores…”.

Sim, Bento Munhoz da Rocha Neto bebia. Como também bebem Jaime Lerner e Roberto Requião, só para citar dois últimos governadores do Paraná. Estes, com uma preferência comum: preferem vinho ao uísque, não dispensam cerveja ou uma caipira de vodca – stalichnoya, por favor! – e não se deixam flagrar, sob hipótese alguma, com um copo na mão.

O The New York Times inscreveu Mr. Da Silva na turma do funil; e Lula vai ter que fazer o teste do bafômetro em cada palanque que subir. Sem tropeçar, como tropeçou ao cancelar o visto do jornalistaLarry Rohter.

Ao NYT, melhor seria que Lula respondesse de outra forma:

– Vocês sabem dos tragos que eu tomo; mas não sabem dos tombos que eu levo.

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