?Os sujeitos de qualidades extraordinárias dependem do tempo em que vivemos. Nem todos tiveram a época que mereciam, e muitos que tiveram não souberam aproveitá-la. Alguns merecem tempos melhores, pois nem tudo o que é bom triunfa sempre. Todas as coisas têm suas estações, até os valores estão sujeitos à moda. Mas o sábio tem uma vantagem: é eterno. Se este não é o seu século, muitos outros serão.? (Baltasar Gracián)

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Jaime Lerner é um sujeito contemplado pelo tempo em que vivemos. Nasceu em Curitiba na Rua Barão do Rio Branco e construiu sua própria casa na Rua Bom Jesus, agora um escritório de planejamento urbano com endereço no mundo. À sombra de duas imensas árvores – paineira e corticeira -, dali se enxergam nesgas da cidade através do vidro de uma grande janela que se faz suporte de riscos e rabiscos, projetos de outras cidades: Valência, na Espanha, Davi, no Panamá, Rio de Janeiro, São Paulo, Florianópolis, Cuiabá, Campinas e Oaxaca, no México.

Veio de Oaxaca a garrafa de mezcal Don Amado com que os jovens arquitetos do escritório de Lerner brindam o visitante. Para os de bom paladar, nada no mundo que se compare a um bom mezcal envelhecido, destilado tipicamente mexicano e avô da tequila. Diziam os médicos espanhóis do século passado que o mezcal abre o apetite, favorece a digestão, acalma a dor, revigora, faz desaparecer a fadiga, estimula a inteligência, acalma a dor e acelera a cicatrização das feridas.

O mezcal parece ter cicatrizado as feridas de quem foi três vezes prefeito de Curitiba e duas vezes governador do Paraná. Passados vinte anos de vida pública, os olhos do arquiteto brilham ao apontar a janela onde se estende o projeto que mais lhe revigora o espírito: o aeroporto do futuro. Encimando os esboços, a frase que sintetiza o calvário do viajante que despende horas para embarcar num vôo de apenas 40 minutos: ?O cronograma do ridículo, o diagrama do absurdo?.

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Aeroporto, um assunto que Lerner conhece perfeitamente bem. De agenda internacional lotada, passa a maior parte de aeroporto em aeroporto – vinte dias ao mês -, enquanto a equipe de casa vislumbra o que seria um aeroporto do futuro: o passageiro embarca, faz o check-in numa célula no centro da cidade, e é transportado diretamente à aeronave. A cidade não vai ao aeroporto; o aeroporto vai à cidade. Simples?

Simples enquanto no papel fixado na janela, tão simples quanto um sonho que Lerner gosta de sonhar: ?Sonhar é preciso e todos devem sonhar. Se o sonho não se realiza, paciência. O sonho se vai, dá suas voltas, até que um dia ele ressurge do inesperado, pega o sonhador pelo colarinho e se faz realidade?.

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De fato, o segundo copo de mezcal é bem mais suave. Um bom momento para fazer uma pergunta indigesta: por que o grande eleitor de Curitiba transferiu o título eleitoral para o Rio de Janeiro? Lerner cala por um momento, como se o tema lhe fosse mais que indigesto, intragável.

Se o escritor espanhol Baltasar Gracián (1647) fosse responder pelo arquiteto, assim diria: ?Uma retirada elegante é tão importante quanto um ataque de estilo. Ponha a salvo seus sucessos, tão logo forem suficientes, quando forem muitos?. Gracián é autor de um clássico, A arte da prudência. Na boa mesa nem tanto, na política Lerner é prudente. Faz de seu título eleitoral domiciliado no Rio de Janeiro um atestado de arquiteto em tempo integral. Longe, muito longe, desse insensato mundo das vaidades políticas. Em suma, não fosse o marido de dona Fany um senhor elegante, diria simplesmente: ?Tô fora!?.

No filme À sombra de um vulcão, mezcal era a bebida do personagem de Albert Finney, um ex-cônsul britânico no México. Não por eflúvios do mezcal, Lerner também sente que estamos vivendo à beira de um vulcão, sedentos de uma constituinte específica para a reforma política. Uma nova ordem, para fazer dos partidos algo além do que concorridos cartórios para registro de tempo na televisão.