A rifa da Madame Champagnat

Madame Champagnat voltou da Europa desolada. Depois de organizar o panelaço no Bigorrilho, ao receber em casa o carnê do IPVA se sentiu assaltada pelo governador Beto Richa:

– Isto é um assalto! Vou dar queixa na polícia!

É aterrorizante um distrito policial às moscas. Às moscas e demais insetos, considerando as atuais condições de funcionamento de um Distrito Policial:

– Delegado, o governo está cobrando o IPVA do meu carro pelo preço que ele não vale! Quero deixar registrada no B.O toda minha indignação com o Beto Richa!

O delegado jogou a ponta do cigarro pela janela – afinal naquela solidão do distrito quem haveria de reparar ? -, ajeitou uma banda de cabelo que atravessava a careca e, com dois tapas no monitor, acendeu no tranco a telinha do computador.
– Doutor, desculpe a curiosidade: mas por que o Distrito Policial está tão vazio?

– Nas atuais circunstâncias, minha senhora, quem haveria de perder tempo com Boletim de Ocorrência, quando todo mundo sabe que a polícia não tem dinheiro nem pra gasolina das viaturas?

– E o governador não toma nenhuma providência?

– Quem ajuda são os vizinhos de bairro. Lá no Sítio Cercado costumam fazer uma rifa para comprar gasolina e mandar consertar as viaturas. Aqui na nossa jurisdição estamos pensando em rifar o retrato do novo secretário da Segurança.
– Doutor, essa é uma iniciativa louvável.

– Bem louvável, o Doutor Francischini gosta de se ver no retrato!

Desde a marcha dos 80 mil pelo centro da capital, Madame Champagnat ficou sensibilizada com a solidariedade do povo:
– Com o apoio da população, poderíamos ajudar pelo menos na manutenção das viaturas da polícia. Se o doutor não se importar, posso emprestar agora mesmo o meu carro de tanque cheio.

– Prender bandido pra quê? Não leu no jornal? A ordem é economizar grana que o governo não tem: o cascalho é insuficiente até para pagar o aluguel de prédios onde funciona a maioria das delegacias, sem falar que aqui não temos recurso nem para pagar a luz, água, material de expediente, os servidores e até a boia foi limitada ao pão que o diabo fornece, já que os padeiros cortaram o fornecimento!

– E como vocês pretendem administrar esse inferno, com tanta gente entulhada atrás das grades?

– Só nos resta pedir ajuda à comunidade. Para arrecadar fundos de manutenção da delegacia, uma das ideias seria rifar um preso por dia. Ganhou levou pra casa! A senhora, por exemplo, tem algum quarto sobrando em casa? Pode ser a dependência da empregada!

Madame Champagnat de súbito se botou de pé de guerra:

– Interessante a ideia de rifar os encarcerados. E no caso de um bingo beneficente, posso doar um dos meus automóveis para o sorteio. Pelo menos faço uma boa ação e me livro de um IPVA. Até mais ver delegado!

– Foi um prazer, madame!

– Ora, apesar dos pesares, o prazer foi meu! Se vocês policiais resolverem fazer um panelaço em favor da segurança pública, contem comigo!

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