A receita do Guilhobel

dm280805.jpgNo próximo dia 17 de setembro, os amigos vão fazer uma revivência da "feijoada Trinity", em homenagem ao seu criador, Guilhobel de Camargo, um camarada que está por aí há muitos anos.

Em Antonina, ainda adolescente, Guilhobel de Camargo só não fez chover bala de banana. Mas em Morretes fez chover peixe. Vereador capelense aos 20 anos, com 275 votos, subiu a serra em andanças pelo Norte da poeira vermelha, São Paulo – onde nasceu de família quatrocentona, do ramo de Paulo Emílio Salles Gomes -, Rio de Janeiro e Brasília, quando foi assessor de gabinete do ministro do Trabalho Amaury Silva, em 1963. O ministério durou 10 meses. Quando do golpe militar, Guilhobel se encontrava junto com outros ministros dentro de um avião, em São Paulo, onde foram presos. Liberados pelo general Amauri Kruel, chegaram a Brasília de madrugada e se instalaram na casa de Amaury Silva, para as devidas conspirações e libações. Enquanto ex-ministros e senadores articulavam a candidatura de Amaury Kruel à Presidência da República, Guilhobel de Camargo fazia o que lhe era mais prazeroso: cozinhava para o grupo que acabara de ser defenestrado da cozinha do poder.

O paranaense Amaury Silva era um "bombeiro de greves", numa época onde apagavam um foco e já aparecia outro. Guilhobel era bem mais afeito a botar fogo na panela. Casado com dona Regina Guimarães da Costa Camargo, desde 1945 a família e os amigos alimentam uma controvérsia: dizem que dona Regina faz o "barreado" e o Guilhobel leva a fama. Maldade que precisa ser esclarecida: quem faz o "barreado" é dona Regina – irmã do falecido jornalista e escritor Samuel Guimarães da Costa – , com receita de boa cepa, de sua avó Thereza de Bastos Guimarães, nascida em Guaratuba. Da família Bastos, dos caiçaras do litoral, ela trouxe de seus ascendentes a receita legítima do "barreado", aquela que era feita unicamente no Carnaval.

Se dona Regina tem o barreado de batismo, Guilhobel levou a fama do "feijão do Trinity". É invenção dele, que apareceu da necessidade de botar um bom almoço na mesa para uma porção de filhos: Gilberto, Lelo e Cristina nasceram em Curitiba; Denise nasceu em São Paulo; Bico no Norte do Paraná; Mina em São Paulo e Tuca numa Curitiba mais recente. Tinham carnes defumadas e não tinham feijão preto. Guilhobel então aproveitou um novinho feijão paulista e, com sua criatividade e os temperos que sabe usar como poucos, inventou o prato que passou a ser preferido da família. O nome veio do filme do "Trinity". Numa cena em que o mocinho está no deserto, encontra uma cabaninha e come um feijão vermelho. O jornalista Fábio Campana, depois marido de Denise, olhou para o prato e batizou: "Parece o feijão do Trinity!". Bem lembrado: Campana tinha o codinome Zapata, quando preso político.

Na página de rosto do livro Bar Dom Juan, Antônio Callado escreveu: ”Quando o processo histórico se interrompe, a impossibilidade se alia ao ócio, a hora é boa para se abrir um bar.” Guilhobel de Camargo abriu um restaurante, como reflexo do baile da ditadura.

O restaurante Guilhobel era geminado ao Posto Sideral, na Rua Itupava, altos da Rua XV, e não tinha viva alma com fome de feijão que por lá não se abancasse aos sábados. O aperitivo do Passeio Público era uma religião e o então prefeito Jaime Lerner o oficiante da missa. Nas cerimônias do Guilhobel, quem abria as orações era o ex-deputado Norton Macedo e quem puxava o canto eram os artistas que então se apresentavam no Teatro Paiol. Há fiéis testemunhas: a "feijoada Trinity" era de se comer ajoelhado. E o Guilhobel de Camargo um camarada de fé.

Por isso vamos reencontrar Guilhobel e dona Regina, para reeditar a saudosa feijoada neste próximo dia 17 de setembro, sábado, no Armazém São Miguel.

Os convites, na forma de avental, podem ser retirados no local (Rua Lamenha Lins, esquina com Almirante Gonçalves) e as reservas pelo telefone (041) 3334-4386 ou 3024-4503.

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