O notável crítico paranaense Temístocles Linhares era um praieiro apaixonado. Das areias escaldantes de Copacabana às águas geladas de Punta del Este, cruzava os mares do sul em busca do sol. Nascido no frio de Curitiba (1905-1993), professor universitário, crítico literário do jornal O Estado de S. Paulo e autor, entre tantas outras obras, de História crítica do romance brasileiro, rotineiramente retemperava no mar a pele de um dos mais respeitados e temidos intelectuais brasileiros. Morreu na praia de Punta del Este, num exuberante dia de sol, presumo.

Recentemente, a Imprensa Oficial do Paraná editou Diário de um crítico, suas memórias em três volumes, parte da coleção Brasil Diferente. De 1957 a 1963, Temístocles Linhares registrou seus dias. E, desses dias, transcrevo os dias de mar, sol e… muitas chuvas. Para o professor Temístocles, a ” chuva é como a morte; necessária, imprescindível, mas ninguém se acostuma com ela”.

1958 – Camboriú

16 de fevereiro

Pela terceira vez me encontro nesta praia agradável, mas já contaminada pelos ecos do carnaval. Eu, que fujo dele, gostaria de não vê-lo manifestar-se nos moldes acentuados de uma estação de vilegiatura, pois penso que seja o carnaval, e só o admito assim, como festa coletiva que contamina toda a população, a exemplo do que ocorria no Rio anos atrás. Hoje, até ali o carnaval está em decadência, as próprias escolas de samba uma de suas criações mais originais parecendo bastante sofisticadas, com prejuízo do caráter popular que as justificava.(…) Para se avaliar o ridículo de tais foliões praieiros não há como vê-los constituindo minoria, apenas objeto da curiosidade aborrecida dos outros. O carnaval, afinal, está morrendo por toda a parte e posso dizer que tenho a glória de assistir os seus funerais.

Camboriú, 17

Alojado em hotel modesto nesta época da temporada praieira, tenho entrado em contato com gente bem diversa da minha classe. Não passo de um desconhecido qualquer e essa condição me permite chegar a penetrar às vezes no íntimo dessas criaturas humildes, que vivem do trabalho e da própria iniciativa. No quarto em que estou ouço as conversas dessa gente que fala alto e parece não ter segredos. (…)

1959 – Ubatuba

6 de fevereiro

Não venho encontrar muitas mudanças nesta nova temporada. O hotel é o mesmo, com pequenas melhorias. Ao contrário de outras praias sulinas, esta não cresceu muito nestes dois anos. Até o tempo parece ser o mesmo, pois não esqueço a temporada de chuvas aqui passada. Ontem tomamos à tarde o primeiro banho de mar, mas hoje já amanheceu chovendo. Todos se mostram apreensivos, o hoteleiro procurando animar os hóspedes com previsões otimistas. (…) Eu, porém, não creio nele, sentindo a sua esperteza e a sua missão caritativa de dar esperanças aos menos conformados com os desígnios da natureza.

Ubatuba, 7

A chuva está, ainda esta vez, prejudicando a nossa temporada. A gente se enerva no hotel. Ponho-me a analisar os hóspedes. (…) Quem, porém, mais me chamou atenção foi a mulher de um deputado, minha conhecida de outros tempos, quando ela não passava de uma prostituta bonita, mas da escalada mais baixa, moradora de bordel, etc. Hoje, aqui pelo menos, ela é a esposa de um deputado. (…) Aqui, o seu comportamento é exemplar e impecável. (…) Minha mulher, que não a conhecia, ficou espantada com a sua história, custando a crer no que lhe dizia. A verdade é que a regeneração também é possível na mulher. Esta, por exemplo, tem a cara de uma madona. É, sem dúvida, a mulher mais santa no hotel.

Ubatuba, 10

Passado o encanto dos primeiros dias, voltam a imperar os problemas da vida cotidiana. (…) O fato é que rendo-me a essa implacável realidade, já não dormi bem esta noite, me aborreci com os latidos contínuos de um cachorro que resolveu não dar tréguas noite adentro aos meus ouvidos, por sua vez já afetados com o barulho do quarto vizinho, ocupado por um casal e duas crianças terrivelmente gripadas e, por conseguinte, impertinentes. (…) Haverá realmente coisa mais banal e enfadonha do que arrumar as malas? É o que vou fazer daqui a pouco, pois preciso estar amanhã cedo em Curitiba, atendendo exigências dessa mesma vida cotidiana.

Rio de Janeiro

1.º de março

Amanhã irei enfrentar o calor carioca. Fala-se tão mal dele, mas na realidade todos o suportam. Do que se quer, enfim, é falar mal de tudo: dos homens, do governo, do tempo. No fundo, porém, o verão nos faz sentir saudade do inverno e vice-versa. (…) Curioso: ando atualmente muito mais sensível ao tempo, às suas mudanças, do que antes, quando não lhe prestava atenção alguma. É fácil explicar. Quando mais moço, eu tinha muitos verões e invernos pela frente.

1960 – Camboriú

23 de fevereiro

Desde ontem aqui, nesta bela praia catarinense, que visito pela quarta vez, em companhia da família. Confortavelmente instalado em meu hotel, desta vez o Fischer, situado num dos extremos da enseada, fico longe da multidão que se aglomera no centro. Ainda não pude descansar quanto desejava, pois várias providências tive de tomar em relação ao meu Dodge, que sofreu bastante na viagem, em virtude das péssimas condições em que se achavam as estradas deste Estado em conseqüência do mau tempo. Foram quinze ou vinte dias de chuvas consecutivas que as arruinaram completamente. Nunca vi tanto buraco na minha vida. O carro, contudo, se portou airosamente. Venci os duzentos e tantos quilômetros que nos separam de Curitiba sem nenhum desarranjo. Mas aqui verifiquei os resultados: o carro com falta de alguns parafusos e porcas, cujo problema não consegui resolver na oficina local. (…) Apesar disso, vi o sol em todo o seu esplendor a se derramar pela praia inteira, coisa que sempre agrada à gente, depois de vê-lo tão arredio e arisco, como sucedeu nestes últimos vinte dias de céu cinzento e carregado de nuvens. Já tomei dois banhos de mar e senti o bem que eles me fizeram.

Camboriú, 25

(…) O fato é que, com três dias de Fischer Hotel, ainda não pude entrar em contato com ninguém interessante. Interessante, contudo, é um casal ainda jovem de quem ninguém se aproxima. Mas o interesse maior para mim está na beleza da jovem. Parece que o casal ainda está na fase da lua-de-mel. Ele só vive para ela e vice-versa, dentro dos bons princípios burgueses. Mas ela é realmente bonita, deixando-nos com água na boca.

Camboriú, 28

Como é diferente a vida de praia em relação a alguns anos atrás! Antigamente, nos meus tempos de moço, vinha-se à praia para descansar, levar vida sossegada, longe da agitação citadina. Hoje, a vida aqui é mais agitada do que nos grandes centros. (…) Ontem, por exemplo, forçado pelos compromissos de família, tive de ir a um baile carnavalesco na sede do clube local, o Iate, que dispõe de um salão tão grande como o de qualquer clube de cidade. Gente aos montes, a mesma animação e pulação desse tipo de festa nos grandes centros. Fantasias e blocos, como o já clássico concurso de a mais isto, o mais aquilo. Coisas da civilização, dirão. (…) Só me aborreço e me deprimo. Entendo que estão se descaracterizando cada vez mais os nossos hábitos praieiros com tais arremedos de civilização coca-cola. (…) Estou realmente ficando velho.

Camboriú, 29

Depois de amanhã cedo deixaremos a praia rumo a Curitiba, bem dispostos e reconstituídos. O mar faz bem e retempera as energias físicas e psíquicas. Sinto-me mais forte e preparado para voltar ao trabalho de rotina.

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