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Zé Maria: histórias.

As tradicionais encenações da Paixão de Cristo, se já não são, agora é que não serão mais as mesmas. O que definitivamente veio a comprometer o tradicional enredo da imolação do Salvador foi a recente revelação da revista National Geographic de que Judas Iscariotes foi aquele que foi sem nunca ter sido. Por mais veemência com que o papa alemão tenha defendido os evangelhos canônicos, aqueles do catecismo, sempre restará uma ponta de suspeita, um resto de misericórdia pelo possível injustiçado das escrituras. In dubio pro reu. Em dúvida pró réu, está escrito na leis dos homens.

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O escritor Cristóvão Tezza bem sabe, já não se encena mais a Paixão de Cristo com direção e figurinos semelhantes àqueles produzidos pelo escritor e teatrólogo Wilson Rio Appa em Alexandra, pequena vila do litoral paranaense. Jovens escritores, eu vi: Cristóvão Tezza fazia o papel de Cristo para o gáudio de dezenas de Madalenas candidatas ao papel de preferida de Jesus. Rio Appa, com suas longas melenas emoldurando a brilhante careca, cumpria o papel de qualquer apóstolo faltoso e até de um Judas retardatário.

Maria Madalena assim se chama por ter nascido em Magdala. Não nasceu em Nova Jerusalém, onde a Paixão de Cristo virou atração anual no calendário da revista Caras.

Saudades de Cristóvão Tezza, o que veio para nos salvar, e Wilson Rio Appa, o que vinha para salvar o elenco. Nas novas Jerusaléns, Luciano Szafir é o Jesus Cristo que substitui Henri Castelli, sempre escalado para o papel e que nunca aparece por motivos de força maior. Xuxa deve ter feito de Szafir um fervoroso católico. Em Nova Jerusalém, o pai de Sasha já interpretou até Pilatos, ao lado de Camila Morgado, a mãe Dele, Maurício Mattar, que também já lavou as mãos e de Raul Gazzola, que botou fogo em Roma.

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O grande público que nos perdoe: eles não sabem o que fazem. José Maria Santos foi um dos grandes atores do teatro paranaense, e sabia o que fazia. Consta que o currículo do Zé poderia começar assim: ?Eis as peças que ele não fez!? Nos deixou em 4 de janeiro de 1990, tem teatro com seu nome em Curitiba, na Rua 13 de Maio, 655; pena que não tenha ressuscitado, porque a cena paranaense ainda se ressente de sua ida às alturas.

Zé Maria encenou tantos e tantos martírios de Jesus. No palco italiano, no tablado e no chão de circo. Na Quaresma, era o circo que fazia temporadas de casa cheia por esse Brasil afora. O Salvador morria na cruz e o palhaço encarnava Jesus.

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Numa daquelas intermináveis esticadas no Restaurante Palácio, Zé Maria Santos nos contava de um palhaço que fazia o Nazareno de barbas e cabelos postiços. Parecia Cristo, mas era palhaço.

Na terceira apresentação de um mesmo domingo, lá estava ele na cruz, os soldados romanos rasgando sua pele, enquanto os fariseus gritavam:

– Fel! Fel! Dê-lhe fel!

Os soldados – o domador do leão, o tratador do elefante e o engolidor de fogo -prontamente prendiam uma esponja molhada na ponta da lança e a esfregavam nos lábios do crucificado, repetidamente.

Uma cena cruel, não fosse o fel que era mel: uma cachaça tão boa que fazia o palhaço se contorcer em súplicas:

– Fel, mais fel! Fel, fel, mais fel!!!