
Tem quem jure que o pistoleiro Ferreirinha ainda está vivo, e bem vivo no imaginário dos marqueteiros políticos. Para quem viveu de perto a recente história política do Paraná, Ferreirinha está morto; porém carece de sepultura. É um insepulto que ronda o noticiário político, guiado pelo calendário eleitoral.
A lenda do Ferreirinha começou no ano de 1990, quando Roberto Requião, candidato a governador pela vez primeira, mostrou na televisão a história de um pistoleiro que teria aniquilado pobres posseiros do oeste do Paraná, a mando do pai do candidato José Carlos Martinez.
As denunciadas chacinas cometidas pelo bandoleiro tinham veracidade. Ferreirinha possuía feição de quem matava por prazer e o suposto mandante das atrocidades, se não tinha culpa no cartório, no cartório da cidade de Assis Chateaubriand contabilizava as maiores fazendas da região. Um mar de terras de conturbadas origens.
No primeiro minuto do início do segundo turno, a história de matanças do pistoleiro Ferreirinha correu o Paraná como um rastilho de pólvora. Também rápido no gatilho, Requião abateu com um só tiro o candidato certo da vitória, o malfadado Martinez.
Requião eleito, venceu também a versão veraz do Ferreirinha, um motorista de ônibus desempregado que havia sido contratado para dar o depoimento falso. Tudo não passara de uma fraude; mas aí Inês era morta e o candidato de Fernando Col-lor de Mello, Zé Carlos Martinez, morreu muitos anos depois num acidente aéreo.
Se vivo na memória, dos últimos momentos de Ferreirinha restou apenas o relato da morte nos versos do compositor popular Carreirinho, da dupla sertaneja Zé Carreiro & Carreirinho. Se, entre a versão e o fato, a versão prevalece, imprima-se versão e versos de Carreirinho; como se verdade fosse.
Ferrerinha (por Carreirinho)
Eu tinha um companheiro por nome de Ferrerinha / Nós lidava com boiada, desde nós dois rapazinho / Fomos buscar um boi bravo no campo do espraiadinho / Eram vinte e oito quilômetros da cidade de Pardinho.
Nós chegamos no tal campo cada um seguiu prum lado / Ferrerinha foi num potro redomão, muito cismado / Já era de tardezinha eu já estava cansado / Não avistava o Ferrerinha e nem o tal boi arribado!
Naquilo avistei o potro que vinha vindo assustado / Sem arreio e sem ninguém fui ver o que tinha se dado / Encontrei o Ferrerinha numa restinga deitado / Tinha caído o potro e andou pro campo arrastado.
Quando eu vi o Ferrerinha meu coração se desfez / Apeei do meu cavalo com tamanha rapidez / Chamava ele pelo nome, chamei duas ou três vezes / E notei que estava morto pela sua palidez.
Pra deixar meu companheiro era coisa que não fazia / Deixar naquele deserto alguma onça comia / Estava ali só eu e ele, Deus em nossa companhia / Veio muitos pensamentos só um é que resolvia.
Pra levar, meu companheiro veja o quanto eu padeci / Amarrei ele pelo peito e numa árvore suspendi / Cheguei meu cavalo em baixo e na garupa ele eu desci / E com o cabo do cabresto eu amarrei ele em mim.
Saí pela aquela estrada, tão triste, tão amolado / Era um frio do mês de junho, seu corpo estava gelado / Já era uma meia-noite quando cheguei no povoado / Deixei na porta da igreja, fui chamar seu delegado.
A morte desse rapaz eu mais do que ninguém sentiu / Deixei de lidar com gado, minha inclinação sumiu / Quando me lembro esta passagem, franqueza me dá arrepio / Parece que a friagem das costas até hoje ainda não saiu!