A maioria dos curitibanos tem plena convicção de que a cidade é apenas lembrada por suas jóias arquitetônicas: a Ópera do Arame, os parques Barigüi, Tingüi e Tanguá e o Jardim Botânico, o cartão-postal da lista dos mais vendidos. Não é bem assim. Para o resto do Brasil o que faz lembrar Curitiba é a moça do tempo: “Máxima de 40 graus em Recife, mínima de 5 graus em Curitiba”. Na Serra Gaúcha os termômetros podem estar batendo no fundo do poço, mas não importa. A mínima sempre é em Curitiba. Só pode ser implicância.

Não que a moça do tempo esteja delirando de febre, é a nossa sina. A cidade não foi estigmatizada como “Curitiba, a fria” assim por acaso. Mas só nós sabemos o quanto a meteorologia nos afeta e quanto ela nos trai. Em pleno verão, nunca, jamais, podemos sair de casa desprevenidos: do nascer ao pôr-do-sol, dia após dia, convivemos com as quatro estações. Além das estações-tubo, que, no seu interior, têm uma temperatura à parte. Não importa a estação, em Curitiba saímos de casa com calça de veludo e retornamos com a bunda de fora. Isso a moça do tempo não sabe.

Luis Fernando Veríssimo que me perdoe, mas sempre sonhei em convidar a Patrícia Poeta para passar um fim de semana em Curitiba. Longe de mim roubar a musa do cronista. É que tenho quase certeza de que foi ela quem inventou o bordão: “Máxima de 45 graus em Salvador, mínima de 5 graus em Curitiba”.

A bela moça do tempo hoje está morando em Nova York, muito bem casada, e o Veríssimo está em Paris, ainda muito bem casado com a Lúcia. Mas imagino Patrícia Poeta fazendo as malas (assim, no plural), no Rio de Janeiro para passar um fim de semana em Curitiba, com o texto decorado e na ponta da língua – “Máxima de 45 graus em Salvador, mínima de 5 graus em Curitiba”. A bagagem, no mínimo, seria assim: um casaco de lã, outro de couro, sobretudo comprado em Moscou, meias de lã, camisetas básicas de malha, botas e, se ela fosse uma moça das antigas, galochas.

Em aqui chegando, Patrícia Poeta sentiria na pele o exagero, mas retornaria ao Rio de Janeiro com a bagagem maior ainda, acrescida de modelitos de meia- estação, compradas nas chiques lojas do Batel. Ah!… Patrícia Poeta voltaria também com dois acessórios bem curitibanos: um lindo topete e um necessário guarda-chuva. Porque a moça do tempo não sabia que Curitiba não só é fria, como também pode chover à revelia dela. O charme de Curitiba é que a cidade foi planejada por arquitetos: tem até goteiras. Como chove dentro de Curitiba; e os arquitetos não tomam providências necessárias.

Se prefeito fosse, criaria o Serviço de Guarda-Chuvas Públicos. Um projeto criativo e factível, como gostam de repetir tantos candidatos a prefeito. De acesso gratuito, o SGCP estaria disponível nas ruas e calçadas, sempre sob as marquises. Teriam cor e identidade visual próprias, assim como o ligeirinho, o expresso e os táxis. Sem taxas ou prévio cadastramento, qualquer Patrícia Poeta desavisada estaria a salvo da chuva curitibana que cai sem pedir licença. Seria pegar o guarda-chuva e seguir em frente, largando num outro posto qualquer. Poderia até ser levado para casa, pois no dia seguinte ele se faria necessário e reposto ao uso público, assim que o sol voltasse a dar o ar de sua rara graça.

Se todas as moças do tempo viessem a conhecer Curitiba, estaríamos livres do bordão: “Máxima de 45 graus em Salvador, mínima de 5 graus em Curitiba”. E ganharíamos outro: “Máxima de 45 graus em Salvador, mínima de 5 a 20 graus em Curitiba, com neve, geada, sol, chuva e arco-íris no decorrer do período”.

Até sexta-feira; e a moça do tempo disse que hoje o dia estará apenas nublado. Eu duvido!

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