Quando o matador pisava no quintal, as crianças já estavam escondidas embaixo da cama e o porco esticado sobre uma mesa improvisada com tábuas, se debatendo, urrando, chutando os quatros carniceiros fortes e experientes que seguravam o bicho. Dois em cima dele, dois segurando-lhe as patas traseiras, à espera do matador enterrar a lâmina pontuda no peito arfante, pouco acima do coração. Do sangue, nenhuma gota desperdiçada, os jorros vermelhos descendo em cascatas num balde de metal com vinagre, para não coalhar.

Naquele dia, o badalar do sino da igreja não anunciava a festa religiosa. Eram só os estertores do enorme animal que ecoavam pelo vale e anunciavam a festa da matança do porco.

Quando o bicho se rendia em lenta agonia, em grunhidos cada vez mais espaçados, a respiração sumindo… sumindo, o jorro sanguíneo um fiapo, as crianças se aproximavam arregaladas para assistir ao bicho ser içado pelos carniceiros numa viga elevada, pelas patas traseiras, com o focinho quase arrastando ao chão. Ao lado, no fogo de chão fervia a água do caldeirão para raspar o pelo do animal, que, esfregado e lavado, tinha a barriga aberta do rabo até a garganta.

Do comprido buraco morno saía um hálito quente, junto com o coração, fígado e rins – para o consumo imediato -; pulmões, intestinos grosso e delgado – que lavados e bem temperados rendiam delícias -, e as tripas: de onde nascem as lingüiças. Escoltadas da polenta, eram o pão nosso de cada dia.

Homens num vaivém, mulheres cortando e provando temperos, a lide no interior do paiol tinha iniciado um dia antes para aquela gente. E muitos meses antes, para o porco.

Nesses tempos elétricos, a matança de um porco representa um caminhão frigorífico entregando carcaças no supermercado, a lingüiça já temperada na churrasqueira, os embutidos na mesa e a bisteca sendo descongelada no forno de microondas. Naqueles tempos de lamparina, sim, a matança do porco era uma festa de vizinhança. E o velho paiol no fundo da casa colonial se transformava numa oficina de odores e sabores.

A morte anunciada do porco começava na ceva, quando a melhor lavagem e as maiores porções de grãos e vegetais privilegiavam o eleito. A gordura e o peso do animal eram conferidos regularmente, até que chegasse a hora. Dias antes, a vizinhança já sabia do grande evento; no dia anterior a lide começava com a limpeza dos caldeirões, frigideiras e panelas, o afiar das facas, o frenesi da gurizada contando histórias macabras do matador e sua faca pontuda.

Na manhã seguinte, o porco amanhecia desconfiado, adivinhando o destino de seu próprio sangue: a morcilha. Da matança do porco nada se perdia, mesmo naqueles tempos da lamparina. Fundamental era a banha, derretida no imenso tacho. Do que não se transformava em toucinho, lingüiça e torresmo, a maior parte era consumida no mesmo dia; outras partes eram retribuições das recebidas em matanças anteriores de vizinhos e parentes distantes. Oferendas de troca.

Para a matança de um porco bem cevado, nada faltava: vinho também jorrava, o queijo era igualmente repartido e os vizinhos músicos compareciam para alegrar a festa, com clarinete, gaita e violão.

O matador chamava-se Angelim. Pesadelo de porcos, presume-se, e de crianças, com certeza. De facada certeira, um dia falhou. Foi quando levantou a pata esquerda do animal estendido e cravou o punhal no sovaco, linha direta com o coração. O bicho jorrou sangue, urrou de dor, com a faca pontuda indo e vindo em vão. A morte não vinha, chegando a causar pena naquela gente acostumada com tanta sangria. Angelim retirou então o punhal do fundo do sovaco esquerdo, ergueu-o de novo e cravou fundo no sovaco direito da fera ferida. Assim, o porco morreu: era um bicho com as entranhas no lado errado; o coração no lado direito.

Quem parte, reparte, a parte do matador Angelim era a melhor parte das crianças; a bexiga que ele mesmo inflava e se transformava na bola de meninas e meninos. Que assim iam dormir em paz.

Até quarta-feira, torcendo para que o 17 de julho de 1975 se repita.

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