A longa perna da mentira

Uma data puxa a outra. Segunda-feira, 27 de março, o ministro Palocci foi demitido pela verdade de um caseiro. Na quarta-feira, o deputado Osmar Serraglio leu o relatório final da CPMI dos Correios, concluindo que o presidente é um ignorante em causa própria. Hoje, 31 de março, é o dia de mentira da "revolução de 64". Amanhã, 1.º de abril, é o Dia da Mentira. Nunca a mentira teve uma perna tão comprida.

Quando o Dia da Mentira surgiu na França, no começo do século 16, o Ano Novo era festejado em 25 de abril, junto com a chegada da primavera. As festas duravam uma semana e terminavam no dia 1.º de abril. Naqueles tempos, a mentira tinha perna curta. Por isso, todos achavam que o rei Carlos IX estava mentindo. Em 1564, anunciou aos súditos a adoção do calendário gregoriano, determinando assim que o Ano Novo fosse comemorado no dia 1.º de janeiro.

Acostumados com as velhas mentiras da monarquia, alguns franceses não levaram a sério a mudança. Sabiam que reformas, vindas da realeza, só mesmo na "folhinha". Continuaram a seguir o calendário antigo, pelo qual o ano iniciaria em 1.º de abril. Na outra ala, os gozadores passaram a ridicularizar os conservadores, enviando presentes esquisitos e convites para festas que não existiam. Não abdicaram do calendário antigo, pelo qual o ano iniciaria em 1.º de abril.

Se alguém achar que tudo isso é mentira, basta conferir no Google: "Em países de língua inglesa o Dia da Mentira costuma ser conhecido como April Fool’s Day ou Dia dos Tolos, na Itália e na França ele é chamado respectivamente Pesce d’aprile e Poisson d’avril, o que significa literalmente "peixe de abril".

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Uma data puxa a outra. Desde o grito do Ipiranga -"Independência ou morte!" -, a mentira no Brasil tem as pernas cada vez mais compridas, e a hipocrisia tornou-se uma instituição nacional.

Os generais determinaram "comemorar" o golpe militar em 31 de março e não em 1.º de abril, a data real do sinistro. Juscelino criou a capital da mentira. Jango Goulart não foi escorraçado, fugiu. Jânio Quadros não bebeu demais da conta, renunciou. Tancredo Neves se internou por mais de trinta dias no hospital para tratar de uma simples dor de barriga. A Academia Brasileira de Letras ainda acredita que Zé Sarney é escritor. Collor de Mello era um caçador de marajás. Fernando Henrique Cardoso pediu para que esquecessem tudo o que escreveu, antes de aplicar todo o dinheiro das privatizações na felicidade da nação.

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1.º de abril de 2006. Nunca a mentira teve uma perna tão comprida.

– "A desgraça da mentira é que, ao contar a primeira, você passa a vida inteira contando mentira para justificar a primeira que contou" – de Luiz Inácio Lula da Silva, que cometeu à nação esta frase que vai abrir sua biografia.

Uma mentira a puxa a outra. Depois de uma perna vem outra perna, devagar o engodo foi ao longe. Não importa nome, sobrenome, seja rico ou seja pobre:

– "Qualquer um pode esquecer seu extrato bancário na rua ou em outro lugar qualquer".

– "O caseiro estava comprado e não merece a mínima credibilidade".

– "Alguém botou esses dólares na minha cueca".

– "Antes das nove estarei de volta".

– "O povo não suporta mais mentiras".

– "Amanhã eu lhe pago, sem falta, mesmo!".

– "Não deixo pedra sobre pedra!".

– "Nunca estive naquela casa".

– "Você foi a única mulher que eu realmente amei!".

– "Faz falta minha mulher Marijana e os filhos, que ficaram em Budapeste. A viagem da Europa a Curitiba dura 12 horas. Isto é muito longe".

– "Tenho certeza absoluta de que não existe esse cheque, a não ser que ele seja um artista muito grande e que tenha produzido esse cheque".

– "O Palmieri foi a Lisboa comigo a passeio para aliviar o estresse".

– "Não o conheço. Estive com ele duas vezes e o cumprimentei sem saber quem era".

– "Eu não minto!".

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No Iraque, George W. Bush é muito lembrado no Fool’s Day – Dia dos Tolos, dos bobos – depois que ele garantiu que aquele ex-país seria um celeiro de armas químicas.

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