O escritor Fernando Moraes vai escrever a biografia do deputado José Dirceu. Os dois são amigos e Moraes foi testemunha de defesa de Dirceu no processo que corre no Conselho de Ética da Câmara para cassar o mandato do deputado por quebra de decoro.

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Quando o destino do deputado for decidido, o autor de Olga e A Ilha começará a entrevistar Dirceu, que está animadíssimo com o projeto. Na biografia autorizada, ele deve recordar o período em que viveu em Cruzeiro do Oeste, aqui no Paraná, onde conheceu sua primeira esposa, Clara Becker, com quem casou na clandestinidade usando o nome falso de Carlos Henrique Gouveia de Mello.

Clara Becker casou com o ex-ministro em 1976 e é mãe de seu primeiro filho, José Carlos, o Zeca Dirceu, atual prefeito de Cruzeiro do Oeste. Quando conheceu Clara, ela não sabia de seu verdadeiro nome nem conheceu sua verdadeira face, já que passou por várias cirurgias plásticas no exílio em Cuba. Clara só ficou sabendo da verdade em agosto de 1979. Diante do choque, a separação foi inevitável.

Zé Dirceu já escreveu livro contando suas memórias. Mas não contou tudo, por supuesto. Fernando Moraes quer fazer de Zé Dirceu uma lenda. Uma das lendas que cercam o então Carlos Henrique Gouveia de Mello, de Cruzeiro do Oeste, está aqui na cidade. Corre de boca em boca, sem que ninguém tenha elementos para provar.

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Diz a lenda curitibana que Clara Becker seria sobrinha de Adolfo Becker, um dos poderosos e ricos ?corretores zoológicos? de Curitiba, na década de 70. Nessa época, diz a lenda, aquele Carlos Henrique Gouveia de Mello vinha muito à cidade, onde teria sido hóspede do ?tio? Adolfo Becker numa mansão no bairro das Mercês.

A lenda curitibana volta e meia é recontada nos velhos bares das Mercês. Surgiu exatamente quando veio a público o caso Waldomiro Diniz e as negociatas com bicheiros cariocas.

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A antiga relação familiar de Zé Dirceu com o bicheiro Adolfo Becker deve ser mais outra das tantas teorias da conspiração. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas alguns moradores das Mercês juram que, naqueles anos de chumbo, um vulto em movimento era visto na janela do sótão da mansão da família de Adolfo Becker. O mesmo vulto que atravessava sorrateiro o portão e disparava num automóvel.

Aquele misterioso vulto no sótão dos Becker seria mesmo Zé Dirceu? Os que sabem da lenda, aqueles velhos moradores das Mercês, pedem mais uma cerveja, passam de mão em mão a foto de Zé Dirceu e um deles aponta uma sombra de dúvida: -Se não me falha a memória, é ele mesmo! Varava madrugada, parecia um cuco na janela do sótão.

Clara Becker desmonta qualquer resquício de veracidade da lenda: nega qualquer parentesco com os Becker de Curitiba. Os Becker de Cruzeiro do Oeste são gaúchos. Afirma que só veio a Curitiba uma ou duas vezes.

Por outro lado, numa entrevista à revista Veja, Clara Becker alimenta com algumas contradições a lenda do alto das Mercês. Ela lembrava que vinha a Curitiba com Zé Dirceu para as festas de família. E, naquelas ocasiões, notava o marido estranhamente nervoso, desconfortável.

Só depois de revelada a verdadeira identidade de Carlos Henrique Gouveia de Mello ela veio a entender o desconforto: Zé Dirceu tinha medo de ser reconhecido por antigos companheiros da cidade.

A quem interessa suposto antigo relacionamento do ex-ministro Zé Dirceu com um dos mais poderosos bicheiros, depois de tanto tempo? A ninguém, presume-se. É apenas mais uma lenda curitibana. Nada mais, nada menos.