A Lady Godiva de Paranaguá

Pode ser apenas mera coincidência, ou mesmo uma alucinação coletiva, mas são muitos os marinheiros que narram para incrédulos ouvintes as incertas aparições de uma loura peladona, nas águas da Baía de Paranaguá, cavalgando um veloz jetski vermelho.

Há testemunhas desta Lady Godiva dos mares do Sul, que cruza a baía em dias incertos, mas em horário e roteiro precisos: ela parte de alguma margem alhures das bandas de Antonina e, sempre ao cair do sol, singra o canal em direção a Paranaguá, apenas vestida pelo lusco-fusco e um óculos náutico preto que faz contraste com a cabeleira esvoaçada pela velocidade de um Kawasaki vermelho e branco. Sempre em pé, com suas formas ondeadas, seios empinados e no mesmo balanço do mar, a loura de púbis dourado passa ao largo do porto, em direção ao Canal da Galheta, aderna à esquerda, embicando para a Ilha das Cobras e inicia uma série de círculos perfeitos em volta dos navios ancorados ao largo, acenando para as tripulações embarcadas.

Tem sido uma festa para a marujada, com a galera debruçada no tombadilho aplaudindo e gritando hurras à peladona do jetski: "The Paranaguá’s naked blondie", assim é tratada a nossa peladona do jetski nas ondas internacionais de rádio, que faz com que as tardes de vigília no Canal da Galheta já sejam mais aguardadas do que as noites de paixão e fúria nas casa de tolerância na zona do Mosquitinho. O que é bom dura pouco, parece dizer a performática desnuda, antes de varar o leito da baía e retornar ao cais desconhecido no rumo de Antonina.

O número de registro náutico do jetski vem coberto com adesivo branco e a Capitania dos Portos desconhece a origem. O comodoro do Iate Clube de Paranaguá ironiza, diz que no verão se consome muita caipirinha a bordo das embarcações. Mas são muitos os ribeirinhos que já assistiram boquiabertos, até babando, à passagem desta Lady Godiva do Canal da Galheta.

Entretanto, poucos apostam um chocolate Godiva na veracidade da incrível performance. Muito antes de virar chocolate, Lady Godiva era personagem de uma lenda que se passava entre os anos 968-1057, na Inglaterra, na região de Coventry. Ali havia um rei, Leofric III, que cobrava pesados impostos de seu povo. Sua mulher, Lady Godiva, implorava ao marido que fosse mais humano com o seu povo. Ele não cedia e, ao contrário, todo o final de ano, na calada da noite, reunia seus ministros para decretar outras medidas extraordinárias de aumento dos tributos. Certa feita, como a bela Lady tornasse a insistir, ele fez uma contraproposta, para humilhá-la e exibir seu poder sobre os seus humildes súditos: que ela desfilasse nua sobre um cavalo pela cidade e ele aboliria os impostos excessivos.

Lady Godiva aceitou o desafio. O Rei, aparentemente liberal, era, no entanto, ciumento, e botou uma condição: ninguém poderia vê-la desfilar nua, todas as portas e janelas deveriam estar trancadas. No dia aprazado, Lady Godiva montou sobre o seu cavalo branco e cavalgou peladona pelas ruas do reino, ofertando sua nudez real à imaginação dos súditos, posto que estavam proibidos de vê-la assim desnuda. Porém, um transgressor, um certo Peeping Tom, resolveu fazer um buraco na janela de sua casa para ver a nudez real passar. Daí a expressão "peeping tom" em inglês, significando o voyeurista, o que sente prazer sexual em ver as intimidades alheias.

O alfaiate Peeping Tom, um profissional liberal prejudicado pelos altos impostos, foi punido com a cegueira por ter visto o que não deveria ver. Porém, o sacrifício pela transgressão valeu a pena e teve algum lucro presumido: a visão do corpo de Lady Godiva cavalgando aquele cavalo branco foi indescritível e, apesar da pena sofrida, o rei aboliu os impostos.

Até quarta-feira; e, bem em tempo, no início da semana uma morena pelada guiava serenamente sua bicicleta na orla carioca. A imprensa noticiou com um adendo: ela não estava completamente pelada, usava um boné. Essa moda pegou, assim como as medidas provisórias.

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