?Quem tem o jornalismo na pele, a esse ponto, sofre na verdade de um mal particular que faz com que o barulho das rotativas seja equivalente à música mais bela, e que nenhum perfume, mesmo o mais suave, iguale-se ao cheiro de tinta de impressão.?
(Da jornalista francesa Caroline Montrobert, que em 1883 passou a assinar suas críticas com o pseudônimo de Séverine, para escapar do preconceito contra as mulheres).
Finito o processo eleitoral, não vai acabar tão cedo a polêmica que cerca a imprensa, questionada na credibilidade e isenção – e quem for absolutamente isento que atire a primeira bobina nos críticos.
No confronto, facções pró-Lula e contra-Lula. Na oposição, colunistas dos poderosos rotativos: Clóvis Rossi, Mirian Leitão, Merval Pereira, Dora Kraemer, Arnaldo Jabor, Diogo Mainardi, Cora Rónai, João Ubaldo Ribeiro, a fina flor.
Em defesa do governo, uma minoria saliente: Mino Carta, empunhando a revista Carta Capital, e Paulo Henrique Amorim; escoltados por uma legião enfurecida de leitores que não escolhem munição para fuzilar os contrários a Lula.
Elegante, Mino Carta não admite trajes camuflados: ?Não trabalhamos a favor de ninguém, muito menos de qualquer partido político. Escolhemos a candidatura de Lula e explicamos por que, ao contrário dos demais que estão com Alckmin e fingem eqüidistância, com a única, clara exceção, d?O Estado de S.Paulo?.
Em O Globo, a colunista Miriam Leitão identifica em Luiz Inácio da Silva ?desvios de comportamento que ameaçam a consolidação da cultura democrática do país?.
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Para compreender e acompanhar com tolerância os engajados jornalistas da era Lula, o livro As vozes da liberdade – Os escritores engajados do século XIX é um bom começo.
De Michel Winock – Editora Bertrand Brasil -, as 877 páginas da obra contam a saga de personagens que sofreram, na pele e no bolso, pela coragem de assumir posições políticas. Sem camuflagens.
No carrossel do século XIX, de 1815 a 1885, seis regimes políticos se sucederam na França: a breve ressurreição do Império, a restauração, a Monarquia de Julho, a II República, o Segundo Império e a III República.
Victor Hugo, Emile Zola, Chateaubriand, Honoré de Balzac, Benjamin Constant, Flaubert, Maupassant, Stendhal, Madame de Staël, George Sand, Renan, Lamartine, entre tantos outros, fundaram jornais e revistas para defender seus ferrenhos princípios. Engajados em idéias que mudaram o mundo, lançaram-se na luta eleitoral, alguns se tornaram deputados, senadores e até ministros. Foram à prisão, com Victor Hugo padeceram no exílio.
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Alguns daqueles engajados viveram para testemunhar a mais liberal legislação que a imprensa jamais havia conhecido: com a grande lei de 29 de julho de 1881, na III República, a imprensa é livre na França. Sem a mordaça da monarquia, a liberdade de colar cartazes, de imprimir, de editar, de divulgar e vender na via pública. A substituição dos tribunais correcionais para os crimes e delitos de imprensa por tribunais de júri completou a alforria da opinião.
Em outro destino, os jornais de Paris multiplicam tiragens e caem nas mãos dos especuladores e financistas. As páginas de economia são sustentadas pela publicidade dos grupos econômicos, que as utilizam como instrumento de especulação: ?Os estragos da corrupção e da venalidade na imprensa evidenciam-se logo como o reverso da liberdade de expressão?.
A guerra entre os órgão da imprensa – entre interesses e ambições – já não é mais contida. Torna-se uma guerra de opinião mantida pela rivalidade entre os partidos e pela ameaça às eleições livres.
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As vozes da liberdade é uma obra ?aggiornata?. Guarda na página 705 um adendo a este tardio debate brasileiro, início do século XXI.
?A pluralidade dos jornais ainda é a maior garantia de liberdade: por meio de um corrigem-se os abusos dos outros.?