Sempre que uma prolongada estiagem se abate sobre o Brasil Meridional e o excepcional verão faz o primeiro planalto paranaense descer a Serra do Mar, um mau cheiro se alastra por Curitiba. É o chorume das más notícias que vêm da Ilha do Mel.

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Se esse fosse um inverno normal, não teríamos notícia da Ilha do Mel. Estivesse geando em Curitiba, estaria aquela ilha esquecida na boca da Baía de Paranaguá, com a maresia corroendo as placas publicitárias de tantos governos anunciando novos projetos para uma das três mais belas naturezas do Paraná, junto com os Campos Gerais e as Cataratas do Iguaçu. Desde 1970 – já escreveu a jornalista Maigue Gueths -, ?como as ondas do mar, chegam à ilha notícias de alguma mudança; e como ondas, nunca passam da praia?.

Em Curitiba, a seca fez o volume de água armazenada cair para 40% da capacidade normal. No Centro Cívico, correm boatos de que o cafezinho só será servido com água mineral francesa Perrier.

O Centro Cívico é uma ilha de fantasias. Não é o caso da Ilha do Mel, no litoral a realidade fede: com mil moradores fixos, a água que sobe dos poços artesianos está contaminada e só é utilizada para lavar aquele velho calção de banho e tirar o sal da pele. O lençol freático absorve as fossas locais e ninguém mais tem coragem de beber água da bica. A minguada população só consome água mineral Ouro Fino. Perrier, só nas moradas de veraneio de um ou outro poderoso da capital.

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O jornalista Nireu Teixeira costuma contar algumas histórias do engenheiro Dario Lopes dos Santos, com quem trabalhou muitos anos na Prefeitura de Curitiba. Já falecido, Dario passou por importantes cargos e foi por muito tempo diretor do Departamento Rodoviário Municipal. Dali Nireu Teixeira foi buscar este caso para uma de suas crônicas: uma pedra enorme foi encontrada no leito de uma rua e o problema parecia insolúvel. Os engenheiros não sabiam mais o que fazer, quando chamaram o chefe. Dario Lopes dos Santos chegou, vistoriou o colosso e ordenou:

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– Vocês fazem um buraco bastante largo bem em frente ao local onde está a pedra. Em seguida, alguém chega por trás da pedra e lhe dá um susto. Se não for suficiente, dá um empurrão. A pedra vai cair direitinho dentro do buraco. Aí vocês tampam, cobrem de terra e prosseguem com a obra, que nós não estamos aqui para brincadeira.

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Ao longo da história, nós paranaenses só lembramos da Ilha do Mel quando o sol aperta. Ou a necessidade aperta. No período das guerras coloniais, a história conta que a população da ilha só era lembrada para servir de bucha de canhão no apoio à tropa regular, para manter às próprias custas os equipamentos bélicos, fortificações, caminhos limpos de vegetação e a navegação de canais. Foi assim na disputa do Tratado de Tordesilhas e sempre que estas necessidades passavam, a população da Ilha do Mel caía no esquecimento.

Projetos e planos para ordenar a ocupação da ilha nunca faltaram. Em 1970 o escritório Muller Procopiak Arquitetos apresentou o primeiro projeto; depois veio o projeto de Rubens Meister, em 1972 e 1980; Jaime Lerner deu sua contribuição em 1975; em 1980 Airton Cornelsen botou no papel um grandioso empreendimento turístico que depois veio a servir para embrulhar os filhotes das últimas garoupas encontradas na baía dos Pinheiros.

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Dario Lopes dos Santos está fazendo falta na Ilha do Mel. Diria o engenheiro:

– Vocês fazem um buraco bastante profundo no centro da parte mais larga da ilha, na retaguarda da Fortaleza. Em seguida, alguém passa um trator da ponta das Encantadas até o Farol. Varre toda a orla da ilha, derruba, arrasta e enterra tudo no buraco: pousadas, barracas, mansões de gente graúda e tudo mais que produzir merda. Aí vocês tampam, cobrem de terra e vamos recomeçar a povoação da ilha, que nós não estamos aqui para brincadeira.