Tudo começou em São Paulo, às margens plácidas do Ipiranga, quando D. Pedro I ficou sabendo que não iria mais receber o Mensalão e resolveu dar um basta na situação: ?Comigo não, D. João! Cadê o meu Mensalão??.
Minas Gerais foi o berço da história: um inconfidente mineiro vazou à imprensa portuguesa que na corte brasileira todos seus gentis-homens estavam num esquema de Mensalão, bancado por um mineiro careca e importantes conselheiros reais. D. João VI ficou estarrecido com as falcatruas da camarilha colonial e mandou tudo investigar, abrindo uma CPI no além-mar. Em Diamantina, onde nasceu JK, as investigações chegaram a um propinoduto chamado Banco Rural, encarregado de guardar as riquezas em ouro, prata, diamantes, todas as jóias da coroa. Para não ser chamado de ladrão, D. Pedro I então criou o Dia do Fico. Ou seja, mandou Portugal às favas e declarou solenemente, ao lado de D. Domitila de Castro, a Marquesa de Santos: ?Diga ao povo que eu fico com os tesouros de Portugal e papai que vá se catar!?.
O bode que deu vou te contar. A Marquesa de Santos contou tudo e foi quebrado o sigilo bancário, fiscal e telegráfico do propinoduto mineiro. A lista ia de Ouro Preto a Sabará: descobriu-se de onde vinha toda a riqueza de Chica da Silva, que ganhara de mimo até uma liteira de ouro. No rolo e no rol, Joaquim José, que também era da Silva Xavier: seus inconfidentes fizeram retiradas dos cofres de Minas Gerais, para pagar um publicitário amigo que havia criado a campanha para separar o Brasil de Portugal. ?Recursos não contabilizados?, alegou então Tiradentes, antes de ser enforcado.
Das estradas de Minas, Tiradentes seguiu pra São Paulo e falou com Anchieta. O vigário dos índios aliou-se a D. Pedro e acabou com a falseta. Da união deles dois ficou resolvida a questão e foi proclamado o Mensalão.
?Locupletem-se todos, ou restaure-se a moralidade? – deixou escrito D. Pedro II antes de fugir para a Europa. Na alfândega francesa, a Polícia Federal descobriu que as malas da família real estavam repletas de libras esterlinas e as cuecas de Sua Majestade forradas de dólares.
A manchete do jornal armou a maior confusão: D. Pedro II detido em Paris com a cueca na mão! Marechal Deodoro da Fonseca reuniu seus batalhões e o tenente-coronel Benjamim Constant prendeu o ministro Ouro Preto, com o gabinete também flagrado com as malas rumo ao Paraguai.
– Viva a República! – gritou Jango Goulart, logo depois proclamado presidente, quando Jânio da Silva Quadros tomou a saideira e renunciou ao Mensalão. O gaúcho imediatamente assinou uma Medida Provisória nomeando um seu apaniguado para a presidência do Banco Rural, fazendo com que as malas chegassem também às esquerdas. Foi o que bastou para que as Forças Armadas fossem outra vez às ruas, inconformadas com o Mensalão comunista. Goulart fugiu para o Uruguai com a mala de Getúlio Vargas no bagageiro e o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco fundou a Arena, partido que ficaria encarregado das malas federais, estaduais e municipais.
De 31 de março em diante, nunca mais se ouviu falar do Mensalão, porque a ditadura censurava a imprensa e os políticos do partido único chegavam a andar de cuecas na rua, sem o menor pudor. Malas, malotes e frasqueiras iam e vinham pelo mar, terra e ar: era o milagre brasileiro, que durou até a morte de Tancredo Neves.
Enquanto o vice José Sarney enterrava o avô de Aécio Neves no cemitério da Igreja de São Francisco, em São João Del Rey, Zé Dirceu dobrava suas cuecas nas malas e, rumo ao poder, uma frase não lhe saía da cabeça.
– Hoje estão enterrando a Arena. Amanhã eu vou enterrar o PT.
E assim se conta esta história, que por séculos não tem fim.