– Guerra é guerra! Se eles querem guerra, vamos à guerra. Papel, caneta e vamos à lista. A lista, a lista!
– Lista, que lista?
– A lista do boicote! Vamos listar tudo o que temos em casa de origem americana, inglesa ou espanhola. Discos, livros, utilidades domésticas, comidas, bebidas, vai tudo pro lixo, pro saco, pro lixo que não é lixo! Vamos cortar a canalha belicista da nossa vida!
– Querido, deixa de ser xiita, fundamentalista, mire-se no exemplo do Lula: agora mesmo pediu socorro aos americanos para gerenciar o Fome Zero e os gringos estão enviando a Usaid. Aquela velha Usaid da guerra fria que nos anos 60 comia as criancinhas dos comunistas.
– À lista, vamos à lista! Pra início de conversa, vamos cortar o McDonald?s do nosso programa. Você sabia que 7% dos americanos comem diariamente no McDonald?s?
– Então tá: corto o McDonald?s da minha vida, mas em troca da tua velha coleção em vinil do Elvis Presley. Ela vai pro lixo que não é lixo. Você sabia que 7% dos americanos acreditam que o Elvis ainda está vivo?
– Devem ser os mesmos que comem diariamente no McDonald?s!
– Fico sem meu sorvete de baunilha, mas a caixa de uísque que você trouxe de Miami também vai pro ralo.
– Querida, já tem morena burra? Meu uísque é escocês! Nada a ver com a Inglaterra, muito menos com Miami. Me poupe!
– Mas aqueles teus vinhos espanhóis vão todos pro ralo!
– Pro ralo, não! É um crime! Vamos usar pra fazer sagu!
– Saindo da cozinha, vamos pra biblioteca! Começando pela tua coleção de escritores americanos que viveram em Paris entre 1944 e 1960: Allen Ginsberg, William Burroughs, Lawrence Ferlinguetti, Richard Wrigt, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway…
– Aí, não! Eles tiraram o time dos Estados Unidos no pós-guerra, já naquele tempo não suportavam o clima repressivo e a atitude belicista dos avós do W. Bush. Manter a geração perdida na biblioteca é uma atitude de protesto. Só jogo fora se você rasgar a coleção da Seleções do Reader?s Digest. Aquela que tua mãe guarda na casa de praia. Duvido que você tenha coragem pra tanto!
– Isso lá é verdade e até assumo. Não sei como seria minha vida, nas férias de verão, se não tivesse a Reader?s Digest pra ler e reler. Mas você também vai confessar que não tem peito pra jogar fora a coleção do Uncle Scrooge McDuck!
– Quem?
– Não me diga que você não sabia o nome completo do Tio Patinhas?
– Falha minha! Sabia que ele nasceu em 1947 e foi inspirado no Elbenezer Scrooge, personagem de Charles Dickens! Pois é… daí o nome Scrooge McDuck!
– Então? O Tio Patinhas vai ou não vai pro lixo que não é lixo?
– Fazer o quê? Guerra é guerra! Mas com uma condição: sabe aquele lista das dez músicas que você mais gosta? Pode tirar sete: “Over the Rainbow”, “New York, New York”, “Somewhere in time”, “As time goes by”, “Rhapsody in Blue” e “Summertime”. Esquece estas sete e fica só com as outras três: “Besame Mucho”, “Chuvas de Verão” e aquela canção do Roberto.
– Querido, aí é sacanagem!
– Guerra é guerra, querida!
– Se é pra ser assim, o boicote é pra valer: a partir de hoje, fuck o Bill Gates, e vamos cortar a internet aqui de casa. Navegar não é preciso e é coisa de americano! Fuck o Bill Gates!!!
– Peraí!!!
– Peraí coisa nenhuma! É ou não é pra retaliar ingleses, espanhóis e americanos?
– Tudo bem… mas, sem internet, como é como vamos contar pra todo mundo que cortamos até a internet?
Até quarta-feira, se houver quarta-feira!