Ao escritor Jamil Snege é atribuída a origem do guruato na cultura paranaense. Guru é o guia, o líder carismático que à sua volta congrega seguidores, às vezes fanáticos. Guruato, pra quem está chegando agora, é o que denominamos o grupo que transita em volta do líder, assim como na ilustração encontrada nos versos de Adoniran Barbosa: “As mariposa quando chega o frio / Fica dando vorta em vorta / da lâmpida pra se esquentar / Elas roda, roda, roda / E dispois se senta em cima do prato / da lâmpida pra descançar”.

Bem antes de Jamil Snege formar seu próprio guruato, nos anos sessenta, o mais poderoso pertencia ao ex-deputado Aníbal Curi e Guru se transformou em codinome do maior líder e conspirador político das últimas décadas. Tão poderoso era Aníbal Curi, que quando faleceu entrou no céu soltando o verbo: – Quem mandava aqui? – perguntou o Guru ao outro Todo-Poderoso. Se bem que, no guruato de Aníbal, ao contrário do guruato de Snege, a verba sobrepunha-se ao verbo.

Na biografia de Paulo Leminski, o escritor e jornalista Toninho Vaz registrou três respeitáveis guruatos da época do polaco poeta, que também tinha o seu, exótico: os guruatos de Oraci Gemba, Manoel Carlos Karam e Sylvio Back. Oraci Gemba tinha o guruato do Teatro Guaíra, o teatrão; Manoel Carlos Karam o do Teatro Margem, marginalizado pelo teatrão – outro formidável guruato da cena pertencia ao diretor e ator Antônio Carlos Kraide, tão grande, alegre e festivo, que não cabe aqui, cabe num livro ilustrado -; Sylvio Back tinha um muito peculiar, um “bloco do eu sozinho”, pois apenas ele fazia cinema no Paraná. E ai de quem se metesse no guruato de Back. O jornalista Aramis Millarch tentou se inscrever e ficaram inimigos de morte.

Retornando à gênese, o guruato de Jamil Snege não era tão poderoso quanto o de Aníbal Curi, mas parte dele veio a ser. O governador Roberto era um dos discípulos de Jamil, que também guiava os escritores Wilson Bueno e Cristóvão Tezza. Estes dois, concubinas infiéis, amavam dois senhores: Bueno traía Snege com Leminski e Tezza veio a fugir com Wilson Rio Appa, o líder espiritual de fanáticos encenadores da Paixão de Cristo.

Traiçoeiro também era o próprio Jamil Snege, traía seus adeptos com Ele, Dalton Trevisan. Em verdade, em verdade vos digo, Dalton Trevisan nunca assumiu seu assombroso guruato. Seus discípulos é que se jactavam de a Ele pertencer, arreganhando a mordida do vampiro marcada no pescoço. Não guiava Ele a nuvem em sua volta, mas ai de quem Dele se aproximasse íntimo: na noite espessa de Curitiba, o vampiro fazia daquela alma perdida personagem. O próprio Jamil Snege sofreu nas garras do vampiro: emprestou suas longas unhas para o conto “Eu, Bicha”. Impressa a infâmia, Snege perseguiu o Vampiro, naqueles tempos sujos, munido de balas de prata.

É preciso revistar a história. Nos primórdios, Jaime Lerner não tinha guruato próprio, pertencia. Arquiteto noviço, o grande arquiteto de Lerner chamava-se Nireu Teixeira. Advogado, jornalista e escritor, Nireu não tinha exatamente um guruato, tinha um gabinete. Daí que sempre foi chefe de gabinete de Lerner. Da viga mestra deste guruato, ou gabinete, nasceram as soluções urbanísticas de Curitiba e, como não podia deixar de ser, muitos e muitos cargos em comissão.

Guruatos expressivos eram os da área editorial, dividida em duas páginas distintas: o das sucursais e os da imprensa local.

Comandante da sucursal da revista Veja em Curitiba, Hélio Teixeira comandava seu soberbo guruato acenando com polpudo soldo e cobiçada promoção ao quartel general paulista. Era uma tropa pequena em si, porém cheia de si.

Na imprensa local, o guruato do jornalista Aroldo Murá fazia parar as rotativas do Diário do Paraná. Na tinta daquelas calandras eram batizados e abençoados os afilhados. Quem não seguisse o catecismo do professor, morria pagão.

E as mulheres? Não formaram guruatos? A Philomena Gebran não deitou sementes? A Alice Ruiz também não? E o guruato da Eliane Prolick, ele existe ou é uma instalação? Até quarta-feira, porque ainda temos os guruatos deste século, nas artes plásticas, na música, na arquitetura, na publicidade, na… o que mais?

continua após a publicidade

continua após a publicidade