A gênese dos guruatos (2)

Diz a lenda que o aventureiro Álvar Nuñes Cabeza de Vaca foi o primeiro a observar os guruatos em terras paranaenses. Em 1541, nomeado governador do Rio da Prata, Cabeza de Vaca aportou na ilha de Floripa – onde viveu alguns meses no Costão do Santinho – e dali partiu rumo a Assunção, no Paraguai, onde chegou em 1542. A caminho de Foz de Iguaçu, cruzando os Campos Gerais, o espanhol entrou em contato com guruatos encontradiços sob os capões de araucária, desde então antropófagos de carteirinha. Muitos anos mais tarde, depois de preso e enviado ao exílio, Cabeza de Vaca narrou suas memórias, e registrou aqueles exóticos agrupamentos humanos como guruatos. Entretanto, quando os originais foram ao prelo, os antropólogos, que eram os revisores da época, o corrigiram e grafaram tribos, onde se lia guruatos. E assim ficou até os anos sessentas, quando ao escritor Jamil Snege é atribuído o resgate do guruato à cultura paranaense, que os antropólogos e jornalistas de cadernos de variedades ainda insistem em denominar de tribos.

A antropologia não reconhece, mas os guruatos paranaenses classificam-se em AS e DS. Ou, Antes do Snege e Depois do Snege. Dos mais longevos, é o do escritor Wilson Martins, um guruato diferente. Numeroso porém restrito, o temido crítico só desce do alto de sua biblioteca para as pontuais feijoadas de sábado, ao lado de privilegiados membros do sodalício. Um deles, de merecida citação, é o ex-deputado Norton Macedo, que em priscas era filiado ao poderosíssimo guruato de Ney Braga. Se bem que o guruato do ilustre político lapiano não pode ser assim considerado, pois todo guruato político carece de sinceridade.

O grande charme da Curitiba moderna é que a cidade foi planejada por arquitetos: tem até goteiras. Como chove dentro de Curitiba; e os arquitetos não tomam providências necessárias. E como a cidade tem arquitetos! São tantos arquitetos que até quem não é arquiteto assina-se urbanista. Ideologicamente é uma contradição, mas só em Curitiba encontramos engenheiros-urbanistas. Porque engenheiro, quando mexe com urbanismo, é prefeito. Casos de Ca0ssio Taniguchi, fundador do guruato de Jaime Lerner, e Rafael Greca, que nunca conseguiu entrar para o de Nireu Teixeira, a cujo guruato Lerner pertencia. O guruato de Jaime Lerner é recente, contemporâneo ao guruato do também arquiteto Luiz Forte Neto. Deste confronto, nasceram as perfídias: os seguidores de Forte Neto acusam Lerner de desenhar com papel carbono, ficando o original lá e a cópia cá. De vingança, os seguidores de Lerner pregaram em Forte Neto um erudito apelido: Salieri.

Freud explica as indagações que fazemos: e as mulheres? Não formaram guruatos? A Philomena Gebran não deitou sementes? Alice Ruiz também não? E o guruato da Eliane Prolik, ele existe ou é uma instalação?

Philomena Gebran ajudou a semear a geração da galeria Cocaco e teve seu breve guruato enquanto durou aquele espaço de arte que virou lenda. Alice Ruiz, quando à sombra do polaco poeta, mantinha sua trupe nos bastidores. Agora tem brilho próprio e não divide seu spot-light com mais ninguém. Se bem que quase foi ofuscada no exercício do cargo de presidente da Fundação Cultural de Curitiba. Mas é o que dá, quando o artista quer soltar foguete e buscar a varinha.

Nas artes plásticas deste século, lugar de mulher não é na cozinha. Eliane Prolik, portanto, não tem panelinha. Tem um guruato onde pinta, borda e dá as tintas. Seus liderados são poucos e bons; só não cabem numa kombi porque a kombi é uma instalação.

Guruato é um clube onde os sócios dançam conforme a música. Maestro desse assunto é Adherbal Fortes de Sá Júnior, jornalista e escritor que agora mesmo está escrevendo um livro contando a história musical do Paraná nos anos sessentas. Em outras palavras, ele vai revelar em detalhes os guruatos então existentes e não vou antecipar aqui as notas da partitura de Adherbal. Aliás, ele próprio um foragido do castelo do vampiro.

Até sexta-feira; e registro em ata que não tenho guruato, pulei de galho em galho.

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