A falta que ele nos faz

Dezembro é o mês da memória. É quando lembramos dos que se foram e dos que aqui estão, do passado e do presente – aqui no sentido de momento e de oferenda. Nos dois sentidos, Curitiba sente que é chegado o mês de dezembro quando começam os concertos natalinos do Palácio Avenida, antigo presente do Banco Bamerindus que o Banco HSBC renova a cada ano. É quando nos traz a memória tanta falta que o Bamerindus nos faz.

Parece que foi ontem: a Rua XV de Novembro em obras para ser entregue aos pedestres, o Teatro do Paiol em obras para ser batizado com o uisquinho de Vinícius de Moraes, e o Palácio Avenida em obras para vir a ser, mais que o presépio vivo da cidade, a referência da Rua das Flores.

Quanta falta o Bamerindus nos faz. Agora mesmo, quando a cidade discute a revitalização da Rua das Flores, nos cabe uma exclamação:

– Ah… esse Bamerindus!

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Há pouco tempo, um grupo de dança encenou no Teatro Guaíra um espetáculo com músicas e imagens publicitárias do Banco Bamerindus. Os poucos que viram foram privilegiados, os muitos que não viram pedem bis.

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Ah… aquele Bamerindus! Não fosse o banco da nossa gente restaurar o Palácio Avenida e fazer dele a sua matriz, o que seria da Rua das Flores?

Ah… aquele Hermes Macedo! – também façamos justiça: não fosse o HM restaurar o Edifício Moreira Garcez, o que seria daquela esquina na Boca Maldita?

Um e outro, referências urbanas. Um e outro, referências do quanto o Paraná perdeu nos últimos anos, tanto na cidade quanto no campo. Acrescentando a lacuna do Banestado. Além do mais, não só de números vive o homem, a cultura paranaense também restou perdendo.

Ah… aquele Bamerindus! As artes plásticas tinham assinatura do Bamerindus, o teatro tinha como pano de fundo o Bamerindus, a música tinha no Bamerindus um maestro, a literatura tinha o Bamerindus na contra-capa.

Ah… aquele Bamerindus! Na agência de propaganda Umuarama, os criadores tinham um bom abrigo. Tempo bom, tempo ruim, era lá onde os navegantes – ilustradores, redatores, poetas, músicos e cineastas – faziam suas provisões para a travessia. Provedora generosa, a Umuarama pagava o preço mais que justo, e os artistas locais eram clientes preferenciais.

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A Champs Elysées é a reluzente avenida que se transformou no símbolo da capital francesa. Com suas lojas, cafés e cinemas, corre o risco de se transformar numa rua sem identidade formada por cadeias de lojas e lanchonetes de fast-food. A avaliação, realizada por uma consultoria contratada pelo prefeito de Paris, diz que o governo e o setor empresarial precisam tomar providências para garantir que a avenida continue a ser um símbolo da ?arte de viver parisiense?.

O prefeito de Paris, Bertrand Delanoe, pediu que sejam apresentadas propostas ousadas para preservar a identidade característica da Champs Elysées como local de memórias, de diversão, de criatividade e de passeio para turistas e parisienses.

?Tendência não é destino? – costuma dizer Jaime Lerner, repetindo René Dubos – entretanto, na devida proporção, o que está acontecendo com a Champs Elysées foi o que aconteceu com a Rua das Flores. Menina dos olhos de Curitiba, o curitibano a trocou pelo claustro do shopping. Livrarias, joalherias, lojas de grife, restaurantes tradicionais, todos se foram. Só restou aquele velho presente de Natal que recebemos do Bamerindus, o Palácio Avenida e seus meninos cantores.

O Bamerindus vestia a camisa da ousadia. Ah… aquele Bamerindus, hoje estaria assinando uma campanha para – lembrando o prefeito de Paris – refazer a Rua das Flores como local de memórias, de diversão, de criatividade e de passeio para turistas e curitibanos.

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O tempo passa, o tempo voa, mas a memória do Bamerindus continua numa boa.

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