Vale a pena recomendar de novo! O jornalista Adherbal Fortes de Sá Júnior está nos agraciando com as melhores páginas da memória musical de Curitiba nos 60s e início de 70. Vestido Branco é o nome do livro que Adherbal vem publicando em capítulos na internet (http://vestidobranco.zip.net) e que tantos, infelizmente, ainda não conhecem. Lá reencontramos os melhores músicos, as grandes orquestras, os bailes do Clube Curitibano, os malandros, os coronéis; a boate Marrocos e as deusas da madrugada. Imperdível! A seguir, um dos capítulos da semana passada.

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Como para a clientela das boates, as argentinas, que disputavam espaço com brasileiras e uruguaias, eram as melhores, as mais ?calientes?, toda casa que se prezasse tinha de ter pelo menos três ou quatro delas. E não foram poucas as brasileiras que, buscando valorização nas boates, acabaram se obrigando a falar portunhol.

 Edeluz Illipronti, mulher de Paulo Wendt, durante anos a postos no caixa da Boate Marrocos, via de perto o que acontecia. As argentinas eram mais descoladas, mais vivas. Vinham do teatro, tinham veleidades artísticas, no mínimo com alguma iniciação em dança. Já as brasileiras, de origem muito mais simples, na maioria das vezes nem eram alfabetizadas. Mulheres bonitas, mas sem nenhum preparo, nenhum estudo, tentavam mesmo era escapar da miséria. Os dois grupos, brasileiras e estrangeiras, eram obrigados a ter carteira de bailarina, o que significava serem catalogadas como prostitutas. Valia igualmente para as moças de boates como para as artistas, as vedetes. Todas também eram obrigadas, uma vez por mês, a fazer exame de saúde. Naquela época, o fantasma da aids ainda não rondava, os maiores pavores não iam além das doenças venéreas. As gringas, além disso, tinham de se apresentar periodicamente na Delegacia de Estrangeiros.

 Paulo Wendt, dono da Boate Marrocos, ia pessoalmente a Buenos Aires escolher balés. Ele mesmo fazia os contatos, e usava rígidos critérios de qualidade quanto à música, à coreografia, figurinos e também quanto às mulheres. Algumas, quando chegavam a Curitiba, sonhando com a ribalta, se recusavam a beber. Acontece que era a bebida, bailarina ao lado do freguês, a garantia de boa parte do faturamento da boate. Por isso, exatamente, existia o milagroso clericô.

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 O coquetel à base de guaraná era servido em taça de champanhe. Não tinha conseqüências, a não ser o aumento das idas ao banheiro. Quem não conhecia o clericô, jurava que as dançarinas ficariam bêbadas. Elas tomavam vinte, trinta doses por noite, enquanto os acompanhantes tomavam vinte, trinta whiskies ou champanhes, compondo cifras interessantíssimas para a caixa registradora das boates.

 Uma das mulheres que mais deu lucro em bebida, em Curitiba – porque maiores paixões suscitou entre os boêmios -, a argentina Laksmi, fazia dança espanhola com castanholas. Foi a única a morar no Lord Hotel. Só ela tinha cacife suficiente, só ela era capaz de ganhar tão bem.

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 Na época, o salário era de Cr$ 94,00 e Laksmi recebia Cr$ 600,00. Mas fazia por merecer. Atraía muita gente. Era enorme a lista de homens que iam à boate só para vê-la. Ela sentava à mesa, bebia junto, conversava, mas não passava disso, tinha um amante, não saía com mais ninguém.

 Laksmi não bebia clericô, preferia whisky e champanhe. Chegava a tomar seis champanhes em uma noite. Por isso ganhava tão bem, era lucro garantidíssimo para a casa, com o que consumia e com o que fazia o par consumir.

 Apesar de beber, não dava escândalos. Quando se sentia mal, aterrissava na cama estrategicamente colocada no camarim, onde dormia até seis, sete horas da manhã. E não foram poucas as vezes em que se fez necessário chamar médico: coma alcoólica. Essa era a única encrenca que Laksmi causava à boate: quando se retirava às pressas, o cliente acompanhante se recusava a pagar a conta. Afinal, ele estava ali por causa dela. Beber era pretexto para tê-la à mesa, bem perto dos olhos.