Foi uma semana alvoroçada no Céu. E não podia ser diferente, pois as notícias davam conta da possível chegada de duas eminentes personalidades: João Paulo II e o empresário José Carlos Gomes Carvalho. Dos recém-chegados, o mais assediado era o presidente da Boca Maldita, Anfrísio Siqueira. Todos queriam saber das últimas maledicências terrenas e, muito especialmente, da veracidade dos boatos de que o nosso Carvalhinho teria provado de dois nada sagrados pastéis de beira de estrada, acompanhados de uma vitamina de abacaxi.
Portanto, Anfrísio Siqueira não se mostrou surpreso quando foi convocado para uma audiência com o Todo-Poderoso. Ficou apenas envaidecido.
– Doutor Anfrísio, em primeira mão quero lhe comunicar que teremos a honra de receber o doutor Carvalho nas próximas horas.
– Quanta honra, Senhor! O Carvalhinho é gente fina, meu amigo de longa data e quero vos afiançar que o Reino Celeste só tem a ganhar com a presença do ilustre empreendedor.
– É exatamente por isso que lhe chamei aqui em meu gabinete. Peço que guarde sigilo e, assim que o doutor Carvalho adentrar ao Reino dos Céus, por favor: o recepcione no Portal de São Pedro e o traga imediatamente à minha presença!
Quarta-feira pela manhã, Anfrísio Siqueira estava de plantão no Portal de São Pedro, quando um anjo do serviço de imigração e passaporte veio lhe avisar que o doutor Carvalho havia acabado de chegar e uma viatura já estava à disposição para acompanhar o empresário à presença de Deus. O reencontro dos paranaenses foi caloroso.
– Carvalhinho, sabe a monumental mansão do Cecílio Rego Almeida, lá em Morretes? Pois é, aqui tudo se assemelha. A diferença é que estamos muito acima das nuvens…
– Foi sempre o que pedi pra Deus: passar a eternidade como se estivesse a bordo do meu jatinho.
– Por falar nisso, dá uma olhada ali embaixo: por coincidência, agora estamos exatamente sobre Santo Antônio da Platina e região.
– Um espetáculo! Jacarezinho ali, Londrina, Maringá, Cascavel mais pra baixo, olha aí um acampamento dos sem-terra, Foz do Iguaçu vista do paraíso é ainda mais paraíso. Esta visão aqui do alto é minha velha conhecida, já cruzei muito estas alturas.
– Carvalhinho, se olhar mais pra esquerda, olha outra maravilha: a Arena da Baixada!
– Mudando de assunto, Anfrísio, tudo calmo por aqui?
– Isso aqui tá o maior fuzuê! Há dias que estamos esperando o João Paulo II, mas tá difícil. O cerimonial do Paraíso já não sabe mais o que fazer, tantas vezes cancelaram homenagens, foguetório e coquetéis de boas-vindas.
– Imagino… O mesmo deve estar acontecendo lá na Fiep. O Rocha Loures, no primeiro dia, vai ter que arcar com um baita prejuízo. Mas, afinal, o papa vem ou não vem?
– Já foi convocado, mas o polaco é duro na queda. Nem mesmo atende aos telefonemas de Deus. Diz que larga o trono quando achar melhor e não quer conversa.
Confirmando o prestígio de Carvalhinho em todas as esferas, o Todo-Poderoso recebeu o ex-presidente da Fiep com pompas e circunstâncias, mas foi direto ao assunto:
– Consta aqui no seu prontuário que o senhor não sossega o pito. Ligeirinho, o senhor pode acarretar problemas para a ordem universal. Quando criei o mundo, criei em sete dias, por força das circunstâncias. Na época, eu tinha tudo pra fazer e nada o que fazer. Aqui o sistema funciona “per omnia seculum seculorum”. Isto é, deixamos para amanhã tudo o que podemos fazer hoje. Como diria o Lula, “de grão em grão a galinha enche o papo”, “devagar é que se anda” e, principalmente, “devagar com o andor”. Assim sendo, uma recomendação final: fiquei sabendo que o seu nome também é Trabalho! Esqueça esse nome!
– Mas por que, Senhor?
– Trabalho, meu filho, contraria um dos cânones da eternidade. É uma palavra dos infernos, não é doutor Anfrísio?
– Assim na terra como no céu, e Deus seja louvado!
Até domingo, se Deus quiser!