Na manhã de segunda-feira passada, um menino vendia balas de goma na esquina da Rua Brigadeiro Franco com Martin Afonso. Depositava maços de balas encartadas em plástico nos retrovisores, em troca de algumas moedas da caridade.

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Uma cena habitual nos principais cruzamentos da cidade, que nos últimos tempos ganhou ares circenses. Antes, tínhamos os aleijados, os cegos e entrevados da miséria nacional. Depois da última ida da Argentina ao fundo do poço, as faixas para pedestres ganharam gracioso sotaque portenho, vinham sendo ocupadas por incríveis meninos malabaristas, até engolidores de fogo. Os meninos de Buenos Aires fizeram escola, mas o circo caiu de qualidade, restou patético. Já são tantos os malabaristas de esquina, que agora assistimos aos meninos fazendo de uma única laranja o único malabar. A mesma laranja sobe, a mesma laranja desce, e o piá fazendo pose de um veterano artista de circo. Quem lembra do Orlando Orfei?

Quem viu, não vai esquecer. Aquele menino vendendo balas de goma, na esquina da Brigadeiro Franco com Martin Afonso, não é de sair da memória. Se fosse um dia comum, seria uma cena comum. A paisagem dolorida do cotidiano. Porém, aquela manhã de segunda-feira passada não era um dia normal. Na noite anterior, a torcida coxa-branca havia dormido de castigo, com o pesadelo da segunda divisão.

A vitória é mãe, a derrota é madrasta. Quem sabe aquele menino da esquina seria órfão? Se assim fosse, bem poderia ser adotado por persistentes torcedores do Coritiba Futebol Clube, porque aquele menino era a imagem da persistência. Ou seria um grande vendedor, um grande marqueteiro?

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Naquele acabrunhado dia seguinte, o menino envergava a tradicional camisa do alviverde, com as duas faixas horizontais no peito. Era uma camisa nova e limpa, parecia recém-tirada da gaveta. Com muito orgulho, de cabeça erguida e com a feição preocupada, o menino se enveredava entre os carros, punha os maços de bala nos retrovisores e fazia caminho de volta para recolher os ganhos.

E que ganhos! Nunca, em dia algum, a colheita teria produzido tantos ganhos. Tenham piedade, quem haveria de recusar alguns trocados ao vendedor, o menino que parecia o maior dos homens, entre aqueles que na noite anterior haviam dormido nos braços da derrota? Se no Alto da Glória o sinal é vermelho, para o vendedor de balas de goma o sinal parecia sempre verde, porque ninguém iria atropelar a esperança contida naquela camisa ainda marcada pelos vincos da derrota.

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O escritor Deonísio da Silva escreveu um belo livro, cujo título expressa a morte anunciada do Coritiba: Avante, soldados: Para trás. É história de amor entre inimigos, ocorrida durante o trágico e polêmico episódio da Guerra do Paraguai, a Retirada da Laguna. Quando Giovani Gionédis, à frente do esquadrão acantonado no Alto da Glória, classificou sua tropa de ?pangarés?, tinha ele conclamado, em outras palavras: Avante, soldados: Para trás!

Deonísio da Silva é filólogo e também autor do livro De onde vêm as palavras. Se consultado, o escritor diria que ?pangaré? é um eqüídeo ou muar desbotado no focinho, no baixo-ventre, e nalgumas outras partes do corpo. Um cavalo manhoso, estragado. Um cavalo reles.

Pangaré: na origem da palavra, a origem do pesadelo coxa-branca.

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Uma vaga na esquina da Brigadeiro Franco com Martin Afonso não custa nada. Um maço de balas de goma custa um real. Cada time tem o seu preço, mas a camisa do menino não tem preço.

Giovani Gionédis é um bem-sucedido advogado, mas seria um péssimo vendedor de balas de goma. Ou vendedor de esperanças, onde o menino da esquina se demonstrou mestre.