O fechamento dos bares e casas noturnas depois das 11 da noite repete a velha história do marido traído: para botar ordem na casa e demonstrar um mínimo de autoridade no lar, o sujeito joga fora o sofá da sala, onde surpreendeu a mulher em pecado.
À primeira vista parece um desvario das autoridades, mas, por hilária que pareça, essa lei que obriga o fechamento dos bares e casas noturnas depois das 23 horas já está vigorando em quatro municípios da região metropolitana de Curitiba – Almirante Tamandaré, Fazenda Rio Grande, Campina Grande do Sul e Piraquara. Nestes quatro municípios, a lei e a ordem retornaram aos tempos medievais. E a capital do moderno Paraná segue no mesmo caminho, admitindo que não conseguimos acompanhar os passos da civilização. Vamos nos render ao inimigo, reconhecendo a derrota para a barbárie. Essa lei imputa a todos nós o tratamento de irresponsáveis, criaturas incivilizadas e irrecuperáveis, gente inculta e tosca que nem mesmo sabem se portar com um mínimo de sobriedade em recinto público.
Nenhum de nós precisa fazer doutorado em Londres – onde os bares cerram suas portas no meio da noite, mas nem por isso a bebedeira não se estende noite adentro, em outros locais -, para entender as causas da violência no Brasil e o que leva qualquer criatura de Deus a encher a cara de cachaça. O brasileiro bebe para esquecer o desemprego, o salário indigno, a falta de um teto, a vida miserável e, principalmente, a educação a que não teve o direito.
Para o cidadão medianamente provido, o bar é ponto de encontro, espaço de convivência e confraternização, o clube da esquina onde se vendem bebidas alcoólicas, inclusive. Para o desprovido, pode vir a ser um muro de lamentações, o local de desabafo, o palco de um crime e o álcool, um companheiro traiçoeiro. Mas não estão no balcão de um bar as causas da violência, os motivos estão rondando lá fora.
A medida é hilária e discriminatória, cabendo constatações e interrogações. O uísque da classe média curitibana faz bem para o espírito; a cachaça das cidadesdormitórios da região metropolitana mata. O rico vai ao bar para fazer amigos; o pobre para fazer inimigos. Alguém teria a coragem de fechar os bares da turística Foz do Iguaçu? Os bares de Guaratuba, Caiobá e Matinhos também seriam fechados após as 23 horas na temporada de verão? E no bairro chique do Batel, a rapaziada dourada vai trocar as baladas noturnas por um animado jogo de bolinha de gude no pátio do posto de gasolina?
É hilário. Melhor seria criar mais uma autarquia pública, nos moldes do Detran, onde o cidadão fosse obrigado a fazer curso e posteriormente se submeter a um rigoroso teste de "habilitação alcoólica". Para freqüentar um bar, a partir daí, se exigiria uma "carteira de habilitação alcoólica", com categorias distintas: Tipo A, para os profissionais, com franquia para todos os destilados, do absinto às poderosas vodkas russas; Tipo B, para os bebedores de cerveja e aperitivos leves; e Tipo C, para os amadores, os biriteiros de fim de semana, habilitados para coquetéis de frutas, champagne e vinhos de baixa graduação alcoólica.
Adqüirir a "carteira de habilitação alcoólica" seria simples: o candidato primeiro passaria por um curso de boas maneiras, um teste psicotécnico para aferir se o cidadão não teria qualquer reação violenta após o consumo e também aprenderia tudo sobre bebidas e seus efeitos colaterais. Finalmente, o teste prático: o candidato seria observado durante algumas horas da noite num boteco qualquer. Os instrutores iriam aferir a existência de algum grau de periculosidade etílica, se na primeira dose ele se torna um chato de boteco – um quesito eliminatório -, e para quais tipos de bebidas e quantidade de doses estaria o candidato habilitado.
Até quarta-feira; e ficamos combinados assim: depois das onze, vamos todos provar da adega do Íle de France.