Na noite de terça passada, o prefeito Beto Richa restaurou à cidade o nosso velho e estimado Teatro do Paiol. Mas coube ao cantor e compositor Toquinho restaurar à memória o nome do jornalista Aramis Millarch.
Conversando com a platéia na abertura do concerto, Toquinho lembrou que estava em casa, num velho calção de banho, quando recebeu um telefonema de Vinícius de Moraes: ?O Aramis Millarch está nos convidando para inaugurar um teatrinho muito bonitinho em Curitiba?.
Trinta e cinco anos depois, o parceiro de Vinícius relatou sua emoção em voltar ao Paiol, teatro que ele inaugurou ao lado de Vinícius de Moraes, em 1971, batizando aquele palco circular com uma unção escocesa de 12 anos, numa alquimia a gosto do poeta: ?Copo longo, com gelinho até a borda, e uisquinho até fazer boiar os cubinhos? – deu a receita Toquinho, depois de olhar em sua volta e alertar aos 220 convidados presentes que ninguém se assustasse se nos camarins e galerias do teatro se ouvisse o tilintar do gelo num copo de uísque. Seria Vinícius, andando por aí.
Junto com o poeta, lembramos nós, também haveria de estar Aramis Millarch, o jornalista que, ao lado de Jaime Lerner, fez daquele centenário paiol de pólvora – finalizado em 1906 – um marco da cultura paranaense.
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Se o Teatro do Paiol foi restaurado – e palmas para Paulino Viapiana, presidente da Fundação Cultural de Curitiba – que se restaure também a memória e se faça justiça ao jornalista Aramis Millarch. Em 1971 ele era o diretor de Relações Públicas e Promoções (DRPP) da Prefeitura de Curitiba, além de animador cultural da cidade e referência local para os grandes músicos e artistas que chegavam à cidade. Portanto, a citação de Toquinho não foi uma vaga lembrança. Foi uma citação inspirada pelo poeta que estava ali ?presente?, fazendo tilintar o gelinho no copinho do uisquinho. Poeta maior, o ?poetinha? não dispensava diminutivos.
Beto Richa merece uma salva de palmas. ?Curitiba está de parabéns por revitalizar um espaço tão especial como o Paiol. É um dos teatros mais bonitos do Brasil e merece ser sempre bem cuidado? – frisou Toquinho, puxando aplausos para o prefeito.
Aquele antigo depósito de pólvora que foi transformado em teatro num projeto do arquiteto Abraão Assad, verdade, ficou bom demais. O silencioso sistema de ar-condicionado está no ponto, poltronas confortáveis, camarins nos trinques, as goteiras não deixaram saudades, paredes com suas texturas originais preservadas: ?O teatro está sendo inaugurado?? – perguntou um amigo de Paulino Viapiana – ?Mas como, se ainda nem pintaram por fora??.
Graças a uma parceria entre a Fundação Cultural e a Fundação Pró-Renal, com o patrocínio da Synteko Produtos Químicos, tudo ficou muito chique, muito bonito, muito bom. Com destaque para o belo retrato do Paiol, no ponto de vista sofisticado do pintor Rones Dumke.
Só faltou um detalhe: homenagear o jornalista Aramis Millarch, aquele a cuja memória a cidade esqueceu de retribuir com um gesto de gentileza. A galeria do Teatro do Paiol, mais que qualquer outro lugar, merece levar o nome de ?Galeria Aramis Millarch?, restaurando o lapso da história.
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Entre os convidados do prefeito Beto Richa, o pianista Gebran Sabbag bem ouviu e se emocionou quando Toquinho citou Aramis Millarch.
Na noite de 27 de dezembro de 1971, após a memorável inauguração do Paiol, houve um jantar na casa do advogado Eduardo Virmond, em honra a Vinícius, Toquinho, Marília Medalha e Trio Mocotó. Ao piano, Gebran Sabbag. Que acompanhou Vinícius no Samba da bênção:
A vida é a arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
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A bênção, Aramis Millarch.