A bandeira do Atlético e a garrafa de champanha

No último réveillon, virei a derradeira folha do calendário de 2003 enquanto também virava a última das 474 páginas da biografia de Gabriel García Márquez, Viver para contar; e com ela iniciei a crônica publicada no dia 17 de janeiro, que transcrevo a seguir e, no melhor estilo de locutor de festa junina, dedico ao jornalista Júlio Tarnowski.

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(…) Na página 396, quarto parágrafo, o autor de Cem anos de solidão e prêmio Nobel de Literatura registra as agruras do então jovem jornalista e colunista colombiano:

"A própria busca de um assunto diário tinha amargado meus primeiros meses. Não me sobrava tempo para mais nada: perdia horas esquadrinhando outros jornais, tomava notas de conversas particulares, me extraviava em fantasias que me maltratavam o sono, até que a vida real saiu ao meu encontro. Nesse sentido, minha experiência mais feliz foi a de uma tarde em que, do ônibus, vi passar um letreiro, na porta de uma casa: Vendem-se palmas fúnebres."

"Meu primeiro impulso foi bater na porta e averiguar os detalhes daquele achado, mas fui vencido pela timidez. Desta maneira, a própria vida me ensinou que um dos segredos mais úteis para escrever é aprender a ler os hieróglifos da realidade sem bater na porta para perguntar nada."

O letreiro na porta da casa rendeu crônica e substância para livros futuros, além de lição. Esta biografia de Gabo tem muitas lições. Numa delas, contou dos vendedores ambulantes de comida. O título: Quem vende comida não passa fome.

(…) O que pretendo ressaltar, justamente neste final de ano e no final da leitura, é a percepção de que a realidade tem seus hieróglifos, seus sinais, que precisamos decifrar, aprender a ler sem bater na porta para perguntar nada. Quantas vezes a premonição nos indicou caminhos, e não fomos capazes de perceber os signos, os hieróglifos da realidade? São momentos quando o futuro nos visita, sem bater na porta, e não percebemos sua presença.

Com um vago desejo de deixar de fumar e com o firme propósito de observar atentamente os hieróglifos do dia-a-dia, assim botei o pé direito neste ano de 2004. Com tudo o que a imaginação permite: uvas, lentilhas, louros, saltando sete ondas. Só falhei com a cueca branca, presente natalino justamente para compor o rol de Iemanjá.

Mas não falhei com uma velha bandeira do Atlético Paranaense, hasteada na varanda, tributo para os deuses do ano novo protegerem a flâmula rubro-negra. No final da tarde do primeiro dia do ano, raptaram a bandeira atleticana de nossa varanda. Observando sinais, atento às premonições, iniciei o ano perguntando ao vento: qual o significado deste rapto? O que os deuses do futebol estavam apontando? O Atlético será roubado no apito?

Ou, premonição do ladrão, o Furacão será bicampeão?

Três dias depois da "queima de fogos" do réveillon, achei na beira do mar um outro sinal para o ano que se iniciava. Uma retardatária garrafa de champanha. Fechada com a rolha original, dentro dela um guardanapo de papel, onde não estava escrito nenhum hieróglifo. Tinha uma mensagem clara, em bom português:

– A quem ler estas palavras, desejo do fundo do coração toda a felicidade do mundo neste ano que acaba de nascer.

Como escrever uma mensagem jogada ao mar no interior de uma garrafa, assim é o ofício de jornalista. Não se sabe o destinatário. A escrita, depois de impressa, percorre mares não imaginados, desaguando numa banca de revistas, ou nas mãos do assinante alhures.

Assim sendo, faço minha a mensagem do fundo da garrafa de champanha;

– A quem ler estas palavras, desejo do fundo do coração toda a felicidade do mundo neste ano que acaba de nascer".

Até quarta-feira; e, ao povo rubro-negro, renovo o que já estava escrito, com sinceros votos de boa sorte.

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