Pelo menos foi um prazeroso derradeiro de ano chegar também ao fim das 474 páginas da biografia de Gabriel García Márquez, Viver para contar, na apaixonada tradução de Eric Nepomuceno. Na página 396, quarto parágrafo, o autor de Cem anos de solidão e Prêmio Nobel de Literatura registra a agruras do então jovem jornalista e colunista colombiano:
– A própria busca de um assunto diário tinha amargado meus primeiros meses. Não me sobrava tempo para mais nada: perdia horas esquadrinhando outros jornais, tomava notas de conversas particulares, me extraviava em fantasias que me maltratavam o sono, até que a vida real saiu ao meu encontro. Nesse sentido, minha experiência mais feliz foi a de uma tarde em que do ônibus vi passar um letreiro, na porta de uma casa: Vendem-se palmas fúnebres.
– Meu primeiro impulso foi bater na porta e averiguar os detalhes daquele achado, mas fui vencido pela timidez. Desta maneira, a própria vida me ensinou que um dos segredos mais úteis para escrever é aprender a ler os hieróglifos da realidade sem bater na porta para perguntar nada.
O letreiro na porta da casa rendeu crônica e substância para livros futuros, além de lição. Esta biografia de Gabo tem muitas lições. Assim, principiante, já fazia escola. Numa delas, contou dos vendedores ambulantes de comida. O título: Quem vende comida não passa fome. Nota dez, com louvor.
Bem, mas o que pretendo ressaltar não é o título acima, discurso perfeito para quem pretende abrir um restaurante. Me chamou atenção, justamente neste final de ano e quase no final da obra, e a percepção de que a realidade tem seus hieróglifos, seus sinais, que precisamos decifrar, aprender a ler sem bater na porta para perguntar nada. Quantas vezes a premonição nos indicou caminhos, e não fomos capazes de perceber os signos, os hieróglifos da realidade? São momentos quando o futuro nos visita, sem bater na porta, e não percebemos sua presença.
Com um vago desejo de deixar de fumar e com o firme propósito de observar atentamente os hieróglifos da realidade, assim botei o pé direito neste ano de 2004. Com tudo o que a imaginação permite: uvas, lentilhas, louros e os saltos de sete ondas. Só falhei com uma cueca branca, presente natalino justamente para compor o rol de iemanjá. Mas não falhei com uma velha bandeira do Atlético Paranaense, hasteada na varanda, tributo para os deuses do ano novo protegerem a flâmula rubro-negra, caída em desgraça nesses dois últimos anos.
No final da tarde do primeiro dia do ano, raptaram a bandeira atleticana de minha varanda. Observando sinais, atento às premonições, iniciei o ano com uma dúvida, cruel dúvida: qual o significado deste rapto? O que os deuses do futebol estavam apontando? O Atlético será roubado no apito? Ou, premonição do ladrão, o Furacão será campeão? O tema restou pendente de alguns outros sinais a se observar do todo poderoso Mário “Sérgio” Petraglia.
No fim de semana passado, feito Champolion, tentei decifrar os hieróglifos contidos no afastamento do comandante do Corpo de Bombeiros, sumariamente demitido pelo governador Roberto Requião. Onde há fumaça, há fogo. Pelos sinais do fumo, depreende-se que muita gente vai sair queimada do Palácio Iguaçu. O circo das eleições vai pegar fogo e não tentem chamar os bombeiros. O governador começou o ano demitindo justamente o comandante da corporação. A leitura é clara: o homem é fogo!
Aliás, uma perguntinha para testar os atributos do novo comandante do Corpo de Bombeiros: coronel Mário Yoshio Wako, por que a expressão “queima de fogos”? Por acaso fogo queima?
Três dias depois da “queima de fogos” do réveillon, achei na beira do mar um outro sinal para o ano que se inicia. Uma retardatária garrafa de champagne. Fechada com a rolha original, dentro dela um guardanapo de papel enrolado, onde não estava escrito nenhum hieróglifo. Tinha uma mensagem clara, em bom português:
– A quem ler estas palavras, desejo do fundo do coração toda a felicidade do mundo neste ano que acaba de nascer.
Como escrever uma mensagem jogada ao mar no interior de uma garrafa, assim é o ofício de jornalista. Não se sabe o destinatário. A escrita, depois de impressa, percorre mares não imaginados, desaguando numa banca de revistas, ou nas mãos do assinante alhures.
Assim sendo, faço minha a mensagem do fundo da garrafa de champagne que achei na praia:
– A quem ler estas palavras, desejo do fundo do coração toda a felicidade do mundo neste ano que acaba de nascer.