Este é um Brasil diferente e nesta banda polaca do Brasil meridional o humor também é diferente: o nosso humor polaco. Não tem sotaque carioca, paulista, baiano, gaúcho ou catarina. O humor da banda polaca tem acento diferente, o jeito polaco de provocar o espírito e contar uma piada.

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O humor desta banda polaca nasceu no Pilarzinho. E fez escola na Barreirinha, Araucária, colônia Tomás Coelho, se esparramou pela borda do campo até chegar a Marechal Mallet. No sotaque do imigrante está o diapasão do riso, o gerúndio o verbo obrigatório: conversar é ?conversando?; trabalhar é ?trabalhando?, gostar é ?gostando?; amar é ?amando?; sorrir é ?sorrindo?.

De pai para filho desde o século retrasado, na academia desta nossa linguagem já se inscreveram grandes cultores de histórias e piadas de polaco: o engenheiro Nicolau Klüpel é o mestre dos contemporâneos, cabendo citar ainda o professor Sérgio Kirdziej, os jornalistas Ulisses Iarochinski e Nireu Teixeira, o poeta e escritor Antônio Thadeu Wojciechowski, o polaco da Barreirinha, até o arquiteto Jaime Lerner – judeu de origem polonesa, Lerner é a pista que nos leva a crer no parentesco do humor polaco com o imbatível humor judaico.

O escritor Roberto Gomes, catarinense de Blumenau, é um atento contador de histórias da nossa linguagem. Numa de suas crônicas ele narrou alguns ?Pequenos diálogos notáveis?, reminiscências de sua vida passada nesta banda polaca. Num desses pequenos diálogos ele lembrava de sua tia Helena Régis, que contava o seguinte: ?Numa Curitiba antiga, ali no bairro de Santa Quitéria, um carroceiro e seu fiel escudeiro paravam a carroça junto ao portão e ofereciam verduras, legumes, ovos. O fiel escudeiro, acesos olhos azuis, chegava à porta da casa, ficava de prosa com minha tia. Lá da carroça, irritado, o carroceiro titular não demorava a gritar:

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– Imos!

E o fiel escudeiro:

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– Já fumos!

Tia Helena prolongava o papo só para ouvir, mais uma vez, o diálogo? – recorda Roberto Gomes.

O jornalista e polaco Jaime Lechinki se inscreve no rol com uma das mais clássicas piadas do humor polaco. Lapiano, Lechinski guardou o sotaque no ponto exato e assina embaixo com o peso do sobrenome:

– Soube já que Stacho morreu?

– Morreu de que Stacho?

– Morreu de amarelôn!

– Amarelôn?

– Sim, aquele maquinom grande da Caterpillar, passando e atropelando ele!

– Bonita cor escolheu Stacho!

vvv

Recolhidas alhures, do Pilarzinho à Barreirinha, ou em hilárias mesas com amigos polacos de origem ou de espírito, venho colecionando exemplos do nosso humor imigrante, com a nossa linguagem e o nosso sotaque.

O AMUADO – Iojo e Ioska formavam um belo casal que se amava e fazia inveja nas noites da colônia, quando os vizinhos se aproximavam da cerca de ripa e os gemidos de amor faziam uma sinfonia de pombinhos apaixonados. Mesmo quando os parentes e amigos mais próximos os visitavam, todos entendiam a senha:

– Truco, Iojo!

– Truco, Ioska!

As visitas tratavam de se retirar, enquanto Iojo ou Ioska já iam se retirando ao quarto, um esperando pelo outro. E truco!

Se amavam, mas tinha dias de sim e dias de não. Nos dias de não, brigavam de ripa.

Em certo dia de não, Iojo estava amuado na cama, quando Ioska se aproximou:

– Truco! – disse Ioska, bem manhosa e pedinte.

E Iojo nada, nem uma palavra, nem um gesto, nem um olhar de promessa. Ioska foi colando o corpo no fingido. Enlaçou o pés nos pés de Iojo, correu com os lábios o pescoço vermelho e espremeu o amuado.

Quando desceu a mão pelo barrigão, e sentiu que o jogo não estava perdido, Ioska sussurrou no ouvido de Iojo:

– Polaco, vai corer com um jogo desses?

MARIDO PERFEITO – Ai, mânhe! Não sei se me acabo casando com o vendedor ou com o militar – dizia Marika à sua mãe.

– Nem pensar, Marika. Com militar! Militar sabe cozinhar, arrumar cama e obedecer ordem que é maravilha!