Os franceses não sabem o que estão perdendo. Nós do Brasil meridional já os conhecemos de longa data e não temos queixas dos encanadores poloneses. Só temos a agradecer e render homenagens à memória e à presença polonesa entre nós. Nossas homenagens não só aos encanadores poloneses, também aos mecânicos poloneses, aos artistas poloneses, aos agricultores poloneses, aos comerciantes poloneses, aos professores poloneses, aos religiosos poloneses, enfim a todos os que da Polônia emigraram para esta nossa banda polaca do Brasil.

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Encanador polonês é a ilustração do argumento francês para justificar o ?não? à Constituição da União Européia, o medo da figura que representa a chegada de trabalhadores imigrantes do Leste Europeu. O encanador polonês se transformou no símbolo da mão-de-obra barata. Em resposta ao preconceito, à agressão e ao mau humor franceses, os poloneses responderam numa linguagem que eles conhecem bem: o bom humor. A Polônia lançou em toda Europa uma campanha publicitária mostrando um jovem, belo e sensual encanador polonês, com o objetivo de atrair turistas, especialmente as belas e elegantes turistas francesas.

– Vou continuar na Polônia, venham todos para cá -diz o belo mancebo em um pôster onde o ?encanador? Piotr Adamski, 21 anos, segura canos, ferramentas e lança um olhar de deixar Catherine Deneuve transpirando sensuais perfumes.

O Brasil meridional é a banda polaca do Brasil onde os encanadores poloneses já procuraram abrigo, na busca de um paraíso que hoje imaginam às margens do Rio Sena. A ocupação da Polônia pelos países vizinhos, desde o final do século XVIII até 1918, a miséria e a superpopulação das aldeias provocaram um verdadeiro êxodo, em que cerca de 3,6 milhões de ?encanadores poloneses? deixaram a Polônia, dos quais aproximadamente 100 mil chegaram ao Brasil.

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Dizem as escrituras que ?a primeira leva dos imigrantes, 32 famílias de camponeses procedentes da Silésia, chegou ao Brasil, em Brusque, no Estado de Santa Catarina, em 1869, por iniciativa de Sebastian Edmund Wos Saporski (1844-1933), chamado ?Pai da imigração polonesa no Brasil?. O grupo foi transferido em 1871 para o Estado do Paraná, estabelecendo a primeira colônia polonesa no Brasil, no Pilarzinho, perto de Curitiba. Nos anos seguintes surgem novas colônias polonesas, formando em torno de Curitiba um ?cinturão verde?, que abastecia a cidade com produtos agrícolas. Surgem também colônias polonesas em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.?

Com Sebastian Edmund Wos Saporski não vieram apenas ?encanadores poloneses?, ou futuros encanadores poloneses – que por essas plagas insalubres ainda nem existia água encanada -, chegaram também as famílias de mecânicos poloneses, comerciantes poloneses, professores poloneses, religiosos poloneses, músicos, pintores, desenhistas e os poetas poloneses. A família Leminski foi uma delas e seu mais famoso filho, Paulo Leminski, nos deixou estes versos:

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meu coração de polaco voltou / coração que meu avô / trouxe de longe pra mim / um coração esmagado / um coração pisoteado / um coração de poeta.

(Polonaises)

O legado da cultura polonesa no Brasil não está explícito apenas nos versos de Paulo Leminski, mas está ali perfeitamente representado. Na obra do ?poeta polaco?, também está impressa uma das mais sensíveis características da alma polaca: o bom humor. E a resposta dos poloneses à paura dos franceses, o medo do ?encanador polonês?, feito símbolo da mão-de-obra barata, é um perfeito exemplo, um ?tapa de luva?. O bom humor contra o preconceito e a injustiça. Nas linhas e entrelinhas de Paulo Leminski, o bom humor sempre foi o braço com que o poeta desarmava os espíritos. E o bom humor é a herança que os poloneses deixaram e seus filhos ainda cultivam.

Este é um Brasil diferente e nesta banda polaca do Brasil meridional o humor também é diferente: o nosso humor polaco.

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Se o caro leitor me conceder paciência, e abusando de sua generosidade, no próximo domingo continuo essa história de polaco, com outras histórias de polacos.