No dia 6 de fevereiro de 1992, não foram poucos os que sentiram uma voz grave nascida do silêncio interpretar Summertime, e há quinze anos a melodia dos irmãos Gershwin é a trilha sonora que acompanha a memória do cantor que, naquele dia, se despedia desta vida que não tem bis.
Arthur Tramujas Neto era o cantor. Promotor público de profissão, quando não estava abraçado no que era de lei, se entregava ao ofício de promover o espírito, sem preconceitos. Podia brilhar uma sessão de jazz, acompanhado pelo trumpete de Saul, ou tanto numa roda de bom chimarrão e música sertaneja quanto numa mesa forrada de sumidades, como certa vez presenciei numa inspirada noite na chácara de Rafael Greca: ao lado de Luiz Fernando Veríssimo, Chico Caruso, Fernando Pedreira, Jaime Lerner, Luis Gravatá e do próprio brilho do anfitrião, Tramujas travou uma disputa com Millôr Fernandes para ver quem contava a mesma piada nas mais diferentes línguas. Não houve vencedor, restou a recordação de felicidade de uma noite incomparável que nunca mais voltaria a se repetir.
Na juventude cantor de orquestras nos bailes da vida, advogado pela Universidade Federal do Paraná e com formação posterior na Universidade de Direito de Padova, norte da Itália, o curitibano Arthur Tramujas era um eclético de alma: sem nunca abandonar a paixão pelo jazz e a música americana – sua gravação de Summertime no lp Optimum in Habbeas Copus, do Bar Habbeas Copus, é antológica -, dedicou seus últimos 10 anos a formar uma imensa biblioteca de assuntos sulinos e mergulhar na cultura nativista. Na sagrada happy hour do Bar Botafogo e depois da segunda dose do uísque Cutty Sark, Tramujas volta e meia encarnava o espírito de Gumercindo Saraiva, o líder maragato da Revolução Federalista que defendia a República Sulina: ?Sou contra o Estado do Iguaçu, mas totalmente favorável à República do Sul, tchê!?. E propunha que a nova moeda da República do Sul se chamasse ?pila?, com o valor de um por dez dólares.
Em 1989, Tramujas quase provocou uma guerra entre os estados que pretendia unir na mesma bandeira. Escreveu Passe a Cuia, tchê!, numa das edições LeitE QuentE da Casa da Memória de Curitiba, resultado de seis meses que passou na Europa pesquisando nas bibliotecas de Milão, Barcelona e Sevilha, quando voltou com documentação que comprovava que o uso do chimarrão quente não nasceu nem no Rio Grande do Sul, nem em Guaíra, mas em Tindiquera, Araucária. Ou seja, ?bem pertinho de Curitiba?.
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Neste sábado, dando um fecho às comemorações da ?Semana Tramujas?, estaremos reunidos na ?Chácra do Tato? – assim mesmo, ?chácra? – endereço no Boqueirão em frente ao Jardinete Arthur Tramujas Neto, em torno do bom chimarrão, uma ovelha assada e os ?causos? do amigo que nos deixou com 41 anos de vida bem vivida.