Pessoas reais x pessoas perfeitas. O que nos faz humanos?

Pessoas reais x pessoas perfeitas. O que nos faz humanos?
Foto: Crônicas do Imprevisível

As pessoas perfeitas não soam verdadeiras. Já as reais, daquelas que às vezes dizem a coisa errada, mas parecem sentir a coisa certa – tropeçam nas próprias palavras, mas nunca na verdade que são. Pessoas reais cansam-se, falham, baralham-se, perdem-se… Mas também sabem pedir desculpa e rir de si próprias. Voltam a tentar quantas forem as vezes. A perfeição é bonita apenas de longe. Não tem histórias, não carrega cicatrizes, não vem daquela desordem bonita que faz alguém ser humano.

Somos perfeitamente imperfeitos. E por isso encanta com todas as letras o ser alguém que é exatamente o que é: não interessa o endereço, o carro, o status, os rótulos cuidadosamente escolhidos para parecer inteiro. Nada disso aquece um abraço, um cheiro no cangote… Nada disso sustenta um olhar quando o mundo some dos pés, quando a solidão bate à porta, quando o silêncio grita no peito. O que importa é ser verdadeiramente bom. Bom num gesto que ninguém vê, na palavra que acolhe, na presença que não exige espetáculo ou palco. Bom no silêncio que respeita, na escuta que não julga, no cuidado que não cobra…

Há corações que não sabem o que fazer quando recebem isso, pois nunca foram ensinados a perceber o amor genuíno em gestos. E, por isso, desconfiam. Recuam. Confundem afeto com ameaça, presença com invasão, carinho com interesse velado. São territórios delicados onde qualquer mão precisa chegar devagar, quase pedindo licença. Não por falta de vontade, mas por excesso de defesa. Quem nunca recebeu atenção sem precisar de troca – não reconhece de imediato quando ela chega. E, então, o desarmar vira também um exercício de paciência.

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É quase que aprender a amansar uma fera sem domar. A chegar sem invadir. A tocar sem ferir. É entender que, às vezes, o outro não retribui por indiferença, mas por não saber como. E, nesse espaço, o gesto precisa ser mais sutil do que discurso. Mais constância do que intensidade. Mais presença e não promessa.

Oferecer calma onde houve caos, abrigo onde antes só existia defesa… Mostrar pouco a pouco que nem todo cuidado machuca, nem toda aproximação exige perda. Repetir com delicadeza, respirar para não reagir no impulso, para que o outro entenda que é possível permanecer inteiro mesmo quando ainda se está em pedaços. Pausar o tempo que for necessário porque algumas histórias não se resolvem no ritmo da pressa.

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Alguns corações só se abrem quando percebem que não precisam correr ou performar, e, sim, apenas ter a coragem de permanecer sendo o que são nesse mundo que insiste na aparência. A escolha de ser verdadeiramente bom, mesmo quando ninguém está olhando é de quem carrega o amor por dentro, a delicadeza de decidir ficar, cuidar, esperar (sem se perder).

Tem gente nesse mundão de Deus, feita de amor puro em tudo o que toca porque entendeu ser um jeito bonito de viver. Entregam o mais precioso dos tesouros: o tempo. Em gesto, atenção, carinho, presença – dizem “estou aqui” em cada ação. Há quem tenha por cor preferida não o rosa, mas a cor de olhos. Enxerga os detalhes do outro como uma das oito maravilhas. Há quem ache lindo e leve compartilhar momentos. Pessoas assim sabem entregar amor a quem chegar, mesmo aos que não saibam receber. São pura e simplesmente, doação.

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