Os lutos que nos atravessam como mar

imagem mostra mar agitado
Foto: Crônicas do Imprevisível

Há algo de silencioso na inconstância humana que só se revela quando somos empurrados para fora das formas antigas. Resistimos à mudança como quem segura o ar antes de um mergulho: acreditando que o pulmão pode manter o mundo igual por mais alguns instantes. Mas o tempo não pergunta se estamos prontos, ele simplesmente avança, e a vida avança com ele. É nesse avanço que descobrimos que a inconstância não é o oposto de força, e sim, o início. Só quem perde e tem o chão revirado, quem desarruma o corpo por dentro, é que entende a potência do continuar.

As perdas significativas nos atravessam com uma precisão assustadora. Partem o que pensávamos ser inteiro, cortam o que julgávamos inabalável e ainda assim nos deixam um resto: um núcleo delicado que resiste. A fragilidade nos coloca de joelhos, mas é ali, tão perto de estar abaixo do chão, que às vezes encontramos um motivo. Olhar para o próprio futuro exige uma coragem que por vezes não cremos porque o futuro é um lugar que simplesmente não existe (aquela invenção íntima que fazemos no escuro!).

 “Como você quer estar daqui a dez anos?”, perguntam – e não é uma pergunta sobre carreira, destinos ou metas que angustia. É o convite para olhar para dentro e perceber se há ainda um desejo pulsante, um contorno de si que não se perdeu no meio das despedidas.

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O luto contorna a vida de muitas formas. Há o luto evidente: o que tem nome e data. Mas há outros mais discretos: o do não dito, o do não vivido, o do amor que se reconfigurou, o da versão de nós mesmos que precisou morrer para que outra nascesse… Esses lutos nos acompanham como margens e não impedem o rio de fluir, apenas lhe dão forma enquanto carregamos nossos pequenos e grandes lutos. A vida vai se firmando ao redor: linda, plena, cheia de oportunidades que se apresentam quase tímidas como quem bate à porta e pergunta: “agora pode ser?”

A beleza da sincronicidade está justamente nessa aparição inesperada. Ela é rara – acontece poucas vezes e por tão pouco tempo que, se piscamos, se hesitamos, se desistimos antes de compreendermos, talvez nunca mais aconteça. Tem algo de sagrado no encontro das coisas que chegam no exato momento em que precisávamos, mesmo quando não sabíamos que precisávamos. Por isso a pergunta é inevitável: você vai deixar passar?

No fundo, a força da vida não é uma imposição externa – é um trabalho secreto que acontece por dentro. É o músculo invisível do espírito, construído no silêncio entre um luto e outro, entre um impacto e outro, entre uma escolha e a sua consequência. É ali que inventamos um modo de seguir. Aprendendo entre um tempo e outro que aquilo que não cabe mais precisa partir, assim como águas que um rio não consegue conter. E somente porque na natureza é assim: rio encontra o mar esvaziando-se. Levando embora o que já cumpriu seu percurso. Abrindo espaço para outras chuvas, outros nascimentos, outras margens e destinos.

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Talvez crescer seja confiar que a vida sabe o caminho. Que a resistência à mudança não nos protege, apenas nos adia. Que as perdas não nos destroem, apenas nos reorganizam. Que o luto não é interrupção. É moldura. E que, apesar de tudo, há sempre um motivo que nasce lá dentro, pequeno, tímido, mas vivo. Um motivo que aponta para frente. Para daqui a dez anos, para amanhã ou para o próximo passo.

E é nesse pequeno motivo que a vida recomeça. Sempre.

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