Lisztomania: a fome continua de música para quem o silêncio pesa

Lisztomania: a fome continua de música para quem o silêncio pesa
Foto: Crônicas do Imprevisível

Há quem acorde com o silêncio como quem abre uma janela para dentro de si e quem desperte já habitado por um som numa batida insistente, quase secreta (como se o coração não fosse apenas carne, mas ritmo). A esses, deram um vício – a lisztomania – uma fome contínua de música, uma necessidade de não deixar o mundo em estado bruto porque o silêncio para eles, pesa.

A música… Ah, a música! Essa organiza o caos e acende as pequenas constelações que fazem o sistema límbico se iluminar dando forma às emoções. O córtex tenta compreender o que nem sempre é compreensível, e no fundo – o núcleo accumbens libera dopamina como quem acende uma fogueira no inverno. É prazer, sim! – mas também, reconhecimento. Como se o corpo dissesse: “isso sim, sou eu inteiro!”. A música deixa de ser som e vira espelho.

Algumas pessoas são como música. Chegam como as vibrantes e excessivas guitarras de Def Leppard em Hysteria: num crescendo emocional que nos pega pela inteligência e eloquência. Apenas e justamente por isso, envolvem sem pedir permissão, mas também não tem necessidade alguma de permanência – e por isso tem marcado espaço.

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E é curioso como esse eco poderoso já décadas atrás atravessou oceanos e encontrou novas vozes – como nas versões e sensibilidades recriadas pela banda Yahoo, que transformou influências estrangeiras em sentimentos que cabiam no português, no rádio e na vida.

Na música, cada palavra ou som parece pesar o exato necessário para tocar algo que não se nomeia facilmente. É como uma solidão que não dói sozinha: ela se canta. Há sons que não se escutam, são para se viver. E, às vezes, precisam mesmo ser vividos (mesmo que por instantes).

Nos anos 80 e 90, o mundo parecia mais sonoro. Tenho essa sensação! Não porque havia mais música – mas porque havia mais escuta. Fitas, rádios, LP’s, vozes, clipes inesquecíveis…Canções que não eram apenas ouvidas, mas habitadas. E isso nos tornou únicos. Somos capazes de reconhecer épocas em segundos de introdução. De completar pensamentos com letras de músicas, de musicar o dia, o tempo… A vida era sonora. E ainda é!

Porque a canção não envelhece no lugar onde realmente importa. Ela permanece no corpo esperando vibrar nos momentos onde canções sejam arrimo (não contra o mundo, mas dentro dele). Íntimos espaços onde a respiração encontra ritmo de novo, não é mesmo? Mas agora… Agora, eu só queria mesmo uma coisa, era saber…

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Qual é a música que te cura? O som que silencia teu barulho… A canção que te abraça e te faz sorrir, a que te fere e te prova que ainda sente… Qual é a melodia que te faz feliz? O compasso que te deixa perdido? Era só realmente o que eu queria saber… O resto todo não me interessa. E talvez nem importe.

Essas músicas não curam no sentido clínico. Mas abaixam o volume do teu mundo quando tudo está alto demais. Aumentam a pulsação quando a vida parece distante. É que a música é esse ajuste fino entre o que sentimos e o que conseguimos suportar.

Há algo quase invisível acontecendo quando uma música nos atravessa… É como se uma canção fosse capaz de reescrever delicadamente a narrativa interna que carregamos. Talvez por isso algumas pessoas não apenas escutem música, mas respirem por meio dela como se cada refrão fosse um pedaço de identidade. Como se cada verso guardasse uma versão possível de si mesmas.

Há quem precise dela como quem precisa de ar. Não é exagero, é linguagem pura. Uma forma de existir. Ouvem a vida em estéreo enquanto o resto da humanidade, ouve em mono. Sabem que há sempre uma canção possível para cada estado da alma. E que, mesmo quando não encontramos palavras, existirá um som tão exato e tão preciso – esperando apenas por nos traduzir.

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