Intersubjetividade: chão firme para a vida

A vida não é uma linha reta traçada em sozinhez, é uma trama de tecido fininho e invisível que se costura entre os olhares, gestos, silêncios e palavras desde que chegamos ao mundo. A isso nomeamos como intersubjetividade: um espaço entre o eu e o outro onde nascem os sentidos, onde aprendemos quem somos e o que o mundo significa.

Nenhum ser humano se faz ou constrói sozinho, pois mesmo antes de sabermos nosso nome, já fomos nomeados pelo desejo de alguém ( e antes de entendermos o que é amor, já fomos ou deveríamos ter sido envolvidos por ele). A intersubjetividade começa no colo da mãe, no olhar que encontra o olhar do bebê e diz, sem palavras: “Eu vejo você. Você existe. Você importa”.

A potência dos encontros: como as conexões moldam nossa história

É assim que sempre criei filho, sabendo que é nesse encontro que o outro se organiza. O bebê não aprende apenas a mamar, a andar ou a falar, mas a sentir. Sente se o mundo é um lugar seguro ou ameaçador e aprende se suas emoções cabem em alguém. A criança entende ali mesmo, no colo – se pode ser quem é ou chorar (e ainda assim continuar a ser amada).

Por isso, mamãe que era sábia nos ensinou desde sempre que não era o dinheiro que fundava uma vida forte. Era a presença e o respeito pela singularidade da criança, a empatia que traduzia um choro em cuidado e um momento ruim em limite amoroso… Era a segurança de ter alguém emocionalmente disponível o tempo todo, alguém capaz de suportar frustrações sem humilhar, de impor limites sem ferir, de dizer “não” sem fazer do amor segundo plano.

Criar uma criança emocionalmente segura exige mais disposição interna do que recursos externos. Exige um adulto que tenha coragem de olhar para si mesmo e rever suas dores, de interromper ciclos de violência silenciosa que não aceita pra si ou para o filho. Exige uma mente preparada para compreender que educar não é controlar, mas guiar. Não é moldar à fórceps, mas acompanhar o florescimento respeitando o que é o outro.

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Testemunho pela segunda maternidade o que já aprendi em casa – quem cresce em um ambiente onde há respeito aprende a respeitar quem quer que seja ou o que for: o limite, o espaço, o gênero, a forma, o jeito de ser, o que tem e o que deixa de ter o outro (pois respeita na totalidade do ser!). Onde há escuta, se aprende a escutar. Onde há afeto, entrega e amor genuíno, se aprende desde muito, muito cedo que vínculos não são ameaças, mas abrigos.

Segurança emocional é isso e não significa ausência de conflitos – mas sim, a certeza de que, mesmo após algo sair do trilho, o vínculo está ali intacto como deveria permanecer.

A construção saudável ensina algo essencial para a vida adulta: o outro não é um inimigo. E quando essa experiência se consolida na infância, forma-se um adulto capaz de amar sem se anular, de discordar sem destruir o outro, um adulto capaz de dialogar sem desumanizar. Um adulto forte que pode até mesmo chorar e sente sem se despedaçar ou que precise despedaçar alguém inteiro para se sentir superior.

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Para criar um ser humano é preciso entender que disponibilidade é mais valiosa que presentes caros e que a doação é mais transformadora do que qualquer herança material. É na entrega imaterial do cotidiano, no tempo compartilhado, na paciência repetida que as raízes crescem para dentro da terra. E raízes profundas sustentam árvores que enfrentam temporais.

Ser emocionalmente preparado não é ser perfeito, é ser humano consciente que pede desculpas quando erra, repara e conserta junto. Sustenta o amor mesmo nos dias difíceis. É compreender que cada interação diária é um tijolinho na edificação do filho.

A vida é totalmente relacional. Tornamo-nos quem somos na qualidade dos laços que experimentamos. Quando nosso início é marcado por amor, respeito, empatia e segurança, cria-se um chão interno firme. E quem tem chão interno firme pode atravessar o mundo com mais equilíbrio. Tenho visto florescer e me orgulho do esforço da maternidade (na maioria do tempo quase invisível e imperceptível aos olhos alheios!).

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Mas dos encontros que guio tenho a certeza que por serem crianças marcadas por presença verdadeira, a firmeza que os forja – os transforma em adultos que sabem oferecer ao mundo e a todos- aquilo que um dia receberam: humanidade e beleza em seus mais verdadeiros e pequeninos significados.

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