Os M&M’s do Van Halen: pequenos confeitos merecem atenção

Pequenas histórias e o M&M's marrom precisam de atenção.

Há histórias que parecem pequenas demais para merecer nossa atenção: um botão faltante na camisa, uma palavra escrita de maneira diferente, um horário que alguém anotou errado, um ingrediente que não estava na receita, um parafuso aparentemente à toa em uma estrutura… E existem também M&M’s marrons.

Eles remetem a algo verídico de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos: o Van Halen. O chocolate marrom no meio de uma tigela de M&M’s, fazia parte de uma cláusula aparentemente excêntrica em um contrato. Um detalhe, quase uma insignificância. Mas, pense comigo! Às vezes, é justamente no detalhe que mora uma história inteira.

Na década de 1980, o Van Halen já era uma das maiores bandas de rock do mundo e não havia exatamente modéstia naquilo que cercava seus shows que faziam qualquer megalomaníaco pirar, pois o grupo formado por Eddie Van Halen, Alex Van Halen, David Lee Roth e Michael Anthony havia construído uma reputação monumental.

Os irmãos Eddie e Alex começaram a fazer música juntos ainda crianças. e a história musical dos dois mesmo iniciada em casa, chegou ao público quando montaram a banda que, depois de algumas mudanças de nome e formação, se tornaria o Van Halen. David Lee Roth entrou nesse percurso e com o microfone era uma presença de palco que parecia ocupar o ambiente inteiro. Uma banda sem igual: com músicos absurdos e composições perfeitamente construídas.

O primeiro álbum, Van Halen foi um fenômeno! Eddie revolucionou a maneira de tocar guitarra, depois vieram diversos discos, turnês gigantescas, multidões e músicas como Jump que atravessaram gerações e levaram a banda a outro patamar. O sucesso foi vertiginoso. E justamente no auge dessa grandiosidade que surgiu o M&M marrom no contrato da turnê dos anos 1980, com uma exigência aparentemente absurda: os camarins deveriam ter M&M’s, mas absolutamente nenhum deles poderia ser da cor marrom. O documento tinha mais de 50 páginas e continha uma quantidade enorme de especificações técnicas.

Será que era uma mera implicância?

A cláusula não estava ali porque David Lee Roth tivesse alguma aversão especial ao chocolate, mas funcionava como uma espécie de teste. Os shows do Van Halen eram produções enormes: com estruturas pesadas, equipamentos sofisticados, iluminação, energia elétrica, cenários e uma série de rotinas que precisavam ser rigorosamente cumpridas. Um erro pequeno em uma montagem poderia deixar de ser pequeno quando colocado dentro de uma estrutura absurda como aquela. Então, quando a banda chegava a uma cidade e encontrava M&M’s marrons, havia uma pergunta intrínseca:

Se eles não leram essa instrução, o que mais não leram? O chocolate era apenas o sinal. E essa é, sem dúvidas, uma das metáforas mais bonitas sobre a vida que uma banda de rock poderia nos deixar: grandes coisas são sustentadas por pequenas coisas. Um edifício não desaba apenas por conta de uma decisão, uma relação raramente termina por uma única conversa, uma carreira dificilmente se constrói em um dia, receitas não vingam em um bolo excepcional apenas pelo ingrediente principal. Há sempre aquilo que quase ninguém vê.

E durante anos, pareceu apenas mais uma extravagância de estrelas do rock. Não era. A exigência dos M&M’s funcionava como uma espécie de alarme silencioso do contrato. E, se alguém não tinha percebido uma instrução aparentemente ridícula, o que garantia que haveria de perceber instruções importantes? Um pequeno e arredondado detalhezinho capaz de revelar um problema muito maior. E talvez seja essa a parte mais interessante da história: não era sobre cor, e sim, sobre responsabilidade.

Há uma diferença enorme entre ser perfeccionista e ser atento. O perfeccionismo pode nascer da necessidade de controle, e a atenção, por outro lado, nasce do respeito pelo trabalho que fazemos, pelas pessoas que confiam em nós, pelo tempo do outro, os compromissos assumidos: por aquilo que parece pequeno, mas carrega o que é importante – a conferência e o cuidado.

Na vida profissional, isso aparece na vírgula de um texto, no horário cumprido, no e-mail que realmente foi lido, na informação conferida antes de ser publicada, na promessa que não foi esquecida. Na dimensão humana, é ainda mais delicado porque pessoas deixam pequenos sinais, muitas vezes, quase imperceptíveis: um olhar diferente, uma mudança no tom de voz, um entusiasmo que desaparece, uma mensagem mais curta, o não lembrar de uma data significativa… No simples perguntar “você está bem?” e realmente esperar pela resposta (seja qual for) estando pronto para acolher o que vem. E até mesmo no pedido de ajuda disfarçado de comentário casual. São os nossos M&M’s marrons. Pequenos sinais que nos convidam a perceber além.

Tudo é detalhe…

Vivemos em uma época que nos ensina a perseguir o extraordinário e grandes resultados, conquistas e acontecimentos. Mas a vida acontece, quase sempre, no minúsculo: no café preparado para alguém, na ligação que fazemos sem precisar de motivo, na palavra que escolhemos não dizer, no pedido de desculpas, na atenção ao que sente uma criança, na escuta de quem amamos. Ser atento não significa viver em estado permanente de vigilância, mas estar presente. E a responsabilidade maior é compreender que aquilo que fazemos (ou deixamos de fazer) tem consequências, mesmo quando ninguém está vendo. Afinal, nem todo detalhe é desprezível.

O Van Halen sabia que um espetáculo grandioso dependia de centenas de pequenas coisas funcionando corretamente e precisava que alguém lesse um contrato. E nós também deveríamos saber e precisamos, vez ou outra, descobrir se estamos lendo o nosso próprio. Será que estamos prestando atenção às pessoas que amamos? Àquilo que estamos deixando para depois? Aos sinais que nosso corpo, nossas relações e nossa própria vida vêm nos dando? Porque pode ser que exista um pequeno M&M marrom em algum lugar. E a pergunta não é se ele deveria estar ali. A pergunta é: “estás prestando atenção?”.

A vida é uma espécie de grande produção: relações, escolhas, afetos, responsabilidades, sonhos e consequências. É certo que não podemos controlar tudo, mas podemos prestar atenção: “ler o contrato até o fim”… Conferir antes de entregar. Ouvir antes de responder. Cumprir o que prometemos. Perceber tudo em quem está ao nosso lado e também cuidar do que parece minúsculo. De repente, o verdadeiro problema nunca tenha sido encontrar um M&M marrom, e sim, descobrir que ninguém havia olhado.

Deixo agora um questionamento: quais pequeninos detalhes da sua vida têm passado despercebidos enquanto se ocupa das coisas gigantes? O hoje é um bom dia para olhar novamente para si mesmo e quem sabe, descobrir que aquilo que parecia apenas uma coisinha – estava tentando dizer alguma coisa há muito, muito tempo.

Leia outras crônicas.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias do estado do Paraná!
Seguir no Google
Voltar ao topo
O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Ao comentar na Tribuna você aceita automaticamente as Política de Privacidade e Termos de Uso da Tribuna e da Plataforma Facebook. Os usuários também podem denunciar comentários que desrespeitem os termos de uso usando as ferramentas da plataforma Facebook.