Há vontades que não chegam de mansinho, entram sem pedir passagem e alteram o ritmo dos dias transformando coisas simples em território de espera. Depois que um desejo verdadeiro nasce, nenhuma rotina permanece intacta. O mundo continua funcionando como antes para todo mundo, menos para quem deseja, pois, desejar alguém, alguma coisa ou um futuro, é passar a viver também na expectativa daquilo que ainda não aconteceu.
O desejar é arriscado. É um quase admitir que algo fora de nós ganhou força suficiente para deixar a travessia vulnerável e de repente – por isso, tanta gente transforme sentimento em silêncio: porque dizer é tornar praticamente real. E o que se torna real já não se pode mais fingir que não existe.
Enquanto se finge, o coração emudece e o silêncio também cobra seu preço. Há os silêncios que descansam e existem também aqueles que corroem. Os que criam profundidade, e outros, criam distância. Vazios surgem pela ausência de gesto, pela palavra que nunca veio, pela presença que hesitou tanto e chegou tarde demais. O tempo não salva tudo como dizem por aí, pois no silêncio tudo pode morrer.
É preciso reciprocidade para que o desejo encontre eco do outro lado, para que exista alguém disposto a permanecer. Ele pede por ação, por verbo, pois todo desejo nasceu para viver – e não permanecer apenas no campo imaginário das possibilidades. Certas vontades precisam ganhar matéria antes que o tal do tempo as transforme em arrependimento. O corpo reconhece mais cedo ou mais tarde aquilo que ficou inacabado, e a carne guarda na memória o que quase aconteceu.
Mas os desejos nunca são tão abstratos quanto fingimos: eles têm nome e sobrenome, endereço fixo e morada. Têm risada específica, ausência reconhecível, lembranças que voltam, sempre apontam para algum lugar concreto (mesmo quando tentamos disfarçar sua direção).
Esperar demais pelo instante perfeito, pela segurança, pela certeza que nunca chega – é um quase entender que a vida não costuma entregar garantias antes das decisões importantes. Todos humanos – justamente por sermos domados por aquilo que buscamos, feitos das faltas, moldados pelo que encontramos no caminho, precisamos assim, da veia da transformação, do acontecimento, do impedir que aquilo que pulsa permaneça eternamente preso ao pensamento.
Há coisas que só encontram sentido quando deixam de ser imaginação e finalmente ocupam espaço no mundo. Certas conexões merecem mais do que silêncio: presença, construção, continuidade. Necessitam o tipo de passo que faz dois mundos diferentes escolherem um ao outro, nem que seja por um instante, como peças de encaixe
